sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sou eu que vou ser seu colega...

“Seus problemas ajudar a resolver
Sofrer também nas provas bimestrais
Junto a você
Serei sempre seu confidente fiel
Se seu pranto molhar meu papel.”

        Este é o caderno. Só isso. Carolina Maria de Jesus tinha lá os seus. Retirados das latas de lixo que ela, pobre, miserável, catava pelas imediações do Canindé. Foi com este caderno que ela deixou suas memórias, num relato único de como podemos ser cruéis. Seus cadernos foram rejeitados por uma afamada editora. Mas um dia foram descobertos, e foram traduzidos para mais de treze línguas.

        Eu não tenho tal pretensão. Mas, mesmo não sendo contemporâneo de Carolina, e mesmo já tendo terminado o meu caderno antes de conhecer sua obra, posso dizer que temos algo em comum: o registro das memórias. E por estes registros, conhecemos as pessoas no âmago do seu ser.

        Naquele velho caderno vermelho, não estão as minhas opiniões, mas sim fotos que ao longo de um ano me chamaram de algum modo minha atenção. O mesmo aconteceu com Carolina.

        A memória humana não é plena e perfeita. Ela está sujeita a lapsos que faz que as informações se percam com o tempo. Especialmente com o que não tomamos por verdade.  Quando “A” critica “B” pelas costas, mas tem muitos afagos pela frente, percebemos que “B” não presta, não o “A”. O tempo passa e aprendemos quem é quem, e aprendemos que sempre há aquele que merece ser defendido. Por fim, silenciosamente somos expectadores de um circo de horrores, que nada mais é que um apanágio tão comum dos humanos.

        O caderno sempre estará envolto no denso véu do mistério, pois assim ele cumpre muito bem a sua função. E o que fascina muitos no caderno, é que ele não está encerrado no escrínio da mente, mas sim, é físico e palpável! Porém mesmo sendo físico ele não pode ser lido, pois está umbilicalmente ligado à mente, ligado às nossas ideias e opiniões. Certas intervenções e intenções alheias se foram claras, serão sempre desastrosas e somente vão contribuir para disseminar mágoas e outras porcarias. Mas é pelo que foi escrito naquelas pequenas folhas que podemos ir ao socorro do próximo quando a injustiça é feita. Sempre de uma forma sutil.

“O que está escrito em mim
Comigo ficará guardado
Se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente
O que se há de fazer?”

Apenas observar, e interferir quando é necessário, por justiça.


N.S.D., 11/04/14.