quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Mãe


Desterro, 03 de outubro de 2018.

Mãe,

Teu dia mais uma vez chegou, e pela primeira vez já não estais mais comigo. A festa deu lugar ao luto fechado, a alegria deu lugar à dor, os parabéns deram lugar à saudade. O dia que eu mais temi na vida finalmente chegou, foi no dia de Nossa Senhora das Dores em que partisse tão cedo... Foram 55 anos de lutas, 55 anos de fé, 55 anos de bom combate, 55 anos de amor.

Tanto lutaste, mas os anos foram cruéis contigo, assim a fatídica noite chegou e a morte, e a morte, essa personagem inexorável finalmente fez a sua infame visita para que a fria sepultura pudesse mais uma vez acolher teu pequeno e frágil corpo. Digo mais uma vez, pois o ventre que te gerou foi como um túmulo para ti, ou mesmo pior; no dia que foste a terra te acolheu mais que o ventre que te gerou. Esse ventre apenas te pôs no mundo, e esta criatura é indigna de ser chamada de “tua mãe”. Vi suas dores e vi o que sentias. Figuradamente busco culpados, os encontrei e recordo bem deles, isso basta.

Quantas mentiras engendram com teu nome... quanta dor te causaram, e o pior, gratuitamente... Se você minha mãe fosse deixada na Roda da Santa Casa não terias sofrido tanto! Não consigo compreender como conseguias ser ainda feliz, positiva, tu sempre com um sorriso no rosto mesmo com uma como “mãe” como aquela... com tanta dor em casamentos fracassados, constantes mudanças, e muitas delas nas costas foste um exemplo de vida!

Como foi excruciante ver-te numa eça, como foi desolador ver tua dor, tanto física como a dor da tua alma. Foste num pequeno ataúde, o que peguei de lembranças na sua casa coube numa mochila, e o que sinto não cabe em mim.  

De tanto te privas-te para dar até de comer aos teus filhos e até isso tua “mãe” te negou, até o amor ela te negou.

Por isso sempre compreendi e aceitei o que dizias, que havias nascido do ventre errado, e quem deveria ter te gerado era a tua tia angelical.

O que vou fazer sem ti?

O que hei de fazer com essas escumalha a minha volta? Escumalha essa que não pode mais ser acrisolada, não há mais possibilidade de epifania, purificação, remissão. Consummatum est.

No dia das mães, éramos nós dois, e não haverá mais um. Nunca mais.

Eu não sei o que é pior, a tua abrupta e precoce partida ou saber como te trataram a vida toda. Contudo, o pior mesmo é ver que meu anjo voltou para o céu como uma luzente estrela, assim como é horrível ver que a ordem natural das coisas foi invertida. Você no céu e alguns demônios da terra, mas como eu digo: que vivam muito e vivam bem, pois os mortos não sofrem com o remorso.  

Mesmo depois de tudo, não quero vingança não, quero apenas e tão somente justiça. Aprendi contigo a virtude da paciência e ainda em minha carne verei esta justiça de D’us.

Quando essa minha agora mais que infeliz existência acabar, vamos nos ver mais uma vez, o dia eterno vai amanhecer para mim, viverei minha páscoa e assim serei feliz. Felicidade... Palavra complicada, que você tanto quis ver em minha vida e acabou não vendo, quem sabe por fé seremos felizes juntos num mundo metafísico.

Em meio a minha dor atroz encontro uma luz débil, mas que me traz algum alento: você descansou, te livras-te da dor daquela máquina hedionda que por anos a foi te manteve viva, já não sofres mais com a vilania dos teus. Agora vês a verdade sem véus e poderás ver muito mais aí, e assim serás livre do mal de uma vida inteira.

Seja feliz aí, minha mãe.

O pior de tudo também é que nem morta te dão paz. Nem da calúnia escapasse, e isso só me leva a pensar no quão mau-caráter alguns podem ser, quão desumanos podem ser os que foram na tua casa falar de ti.

Hoje só me restam a dor, saudade, paciência, raiva, rancor, mágoa e um fanal de esperança.

Tua partida me mostrou o pior do ser “humano”, onde nem teu pai foi poupado de tamanho furor.
É por pessoas assim que o mundo é o que é uma fétida latrina onde temos que conviver com demônios que eructam santidades em seus sepulcros caiados.
Se existe um D’us bom, ele será muito justo e hei de ver sua justiça.

Descanse. Fique em paz, e busque aí a felicidade que aqui você não teve.
Dê um beijo no vô por mim.
Sempre vou te amar.   


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O Sepulcro do Belo

O verniz da beleza não se mantém, é frágil e tal fragilidade sempre passa despercebida. E nessa sutil debilidade que poucos percebem que possuem, cai a máscara e contemplamos a vil criatura sem véus tal como Dorian em seu afamado retrato. Se a vaidade e o orgulho forem pecados, assumo a minha felix culpa envaidecendo-me de intelecto, pois envaidecer-se da própria beleza é um apanágio próprio dos tolos, pois a beleza embora cativante é sempre transitória, o tempo é uma personagem implacável contra o belo e o físico. Por outro lado a sabedoria pode aumentar com o tempo, basta você querer.

Certa manhã eu conversava com alguns amigos e acabei utilizando uma palavra um pouco mais rebuscada, e tive que ouvir: "amigo, não usa palavras difíceis porque eu não entendo". O invejei, pois os apedeutas são infinitamente mais felizes, afinal, como reza o adagiário popular, a ignorância é uma dádiva.

Considero que ao logo dos anos recebi algumas dádivas, mas a paciência definitivamente não está entre as por mim recebidas. Isso me traz uma grande dívida a ser saldada, pois como não sou um ser eutímico já não tenho tanto tato com o mundo a minha volta. 

Como disse, há um preço, um insulamento, um eterno exílio onde se espera por uma absolvição que nunca virá.

Reza o adagiário popular que beleza não põe a mesa, e eu completaria dizendo que intelecto não põe cama.

N.D.E., 13 de agosto de 2018.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Longa Noite

N.D.E., 21 de junho de 2018.

Hoje é o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Em alguns grupos falou-se nisso, mas o penso que o que faltou é algo simples porém profundo, algo que passou desapercebido por muitos...

E é a luz que passou desapercebida entre muitos irmãos. É com essa mesma luz que reconhecemos um ao outro, e nas trevas me socorro de um João, tão santo quanto o discípulo amado, o místico da Cruz.

João da Cruz, espanhol do século XVI, carmelita experimentou o que Cristo vivenciou quando proferiu as célebres palavras "meu Deus porque me abandonaste?". A mesma noite escura da alma  foi vivida por Edith Stein, filósofa atéia que encontrou o livro da vida de Santa Tereza e o tomou como verdade, deixando assim sua vida como era e passando a abraçar a vida religiosa.

Santa Teresa de Lisieux viveu a mesma dor da noite escura da alma, assim como Teresa de Calcutá. E hoje, penso que todos nós vivemos essa noite escura da alma que nada mais é que a nossa  jornada rumo à perfeita comunhão com o Grande Arquiteto. Mas essa escuridão é também uma crise de quem crê, a crise da dúvida da ausência de Deus, onde a fé vacila, a oração (ou o ritual?) torna-se vazia e excruciante, neste momento nos sentimos naquele lugar onde não há paz, "de onde mesmo da fé se duvida e onde a guerra virtude se faz": o desterro.

Porém, a noite escura é uma jornada como a de Paulo, onde "combatemos o bom combate, terminamos a longa jornada e mantemos a fé".

O que notamos no solstício é que a noite mais longa, porém no outro dia o astro rei voltará a brilhar e espalhar mais uma vez o dom da vida. E o que não notamos foi que a luz do dia será cada vez mais longa.

Não é a escuridão de um dia que importa, e sim a luz que volta a brilhar, cada vez mais.

A Loja tem leu lado noite escura, como cada indivíduo nela, e cabe a cada um compreender que amanhã o sol brilhará mais uma vez para um novo começo, onde o velho ficará no ontem.

A noite escura pode ser vista na Tábua de Delinear, onde vemos um templo escuro e a Escada de Jacó no meio dele, escada esta que leva para a luz.

Esta noite é a noite da dúvida, que será dissipada amanhã, onde "sobre as estrelas o dia amanhece, onde se ostenta a verdade sem véus, onde terminam embustes, onde há altos desejos e celestes vontades".

Indubitavelmente é vontade do bom Pai ver seus filhos no bom caminho. Façamos isso como irmãos que somos, unidos.