sábado, 26 de outubro de 2019

Cheio de Si... ou eu cheio de Ti


Desterro, 24 de Outubro de 2019.

Numa aminada conversa com alguns amigos surgiu sem muita demora o famoso (e doloroso) assunto que é inerente a todos os seres humanos em algum momento de suas vidas: o amor não correspondido. Geralmente imagino eu que isso seja logo no primeiro amor, afinal, vocês estão lendo as palavras escritas pela mão de alguém que credita que o primeiro amor é uma maldição e nunca dá certo. Sabe como é, experiências e desventuras pessoais.

Devo propedeuticamente situar você leitor em algumas coisas: nessa curiosa conversa o meu “objeto de desejo” se fazia presente como sempre; como não serei correspondido estou tratando de seguir com a minha vidinha como é possível, como se diz, aberto a possibilidades e conhecer novas pessoas. Então neste ínterim conheci de fato uma nova pessoa, que pra variar não deu certo, pois, após ficamos juntos, ela disse que tem outro. Sobrei.

Nesse arranjo no mínimo dissonante, ouvi da menina dos meus olhos, que eu não deveria procurar mais a outra pessoa, - e ela já tinha me procurado – que eu deveria me valorizar, e deixar a outra correr atrás de mim, “pois isso faz um bem danado para o ego”.

Em um par de segundos entendi algo que havia ali: eu sempre inflei seu ego correndo atrás e fazendo toda a sorte de favores – alguns até difíceis e complexos. Na hora do aperto meu telefone sempre toca para que eu ouça uma súplica. Vem cá, tenho cara de Deus pra ficar atendendo súplicas e pedidos?

Outro ponto crucial nesta história: basta eu desaparecer um pouco que ela surge milagrosamente tais como vendedores de guarda-chuva em dia de dilúvio perguntando se estou bem, ou porque sumi. Afinal, quem quer perder alguém que fica ali morrendo, padecendo e fazendo tudo por ti? Absolutamente ninguém. Quanto eu tinha lá os meus 16 ou 18 anos, minha falecida mãe me disse que era maravilhoso ter alguém morrendo e padecendo pela gente. Acho que foi o único conselho nesse sentido que ela me deu a vida toda. Pouco falamos sobre minhas desventuras, o mesmo ocorre com meu pai.

Numa das vezes que desapareci, recebi uma mensagem mais ou menos assim: “não quero que sumas da minha vida, mas se isso te fizer bem, ok”. A leitura que faço hoje é triste, realista e cruel, sou apenas uma bengala, muleta, algo (e não alguém) que pode ser usado quando necessário.

Esse é o triste mundo líquido de Bauman.

O Pecado Original


N. S. D., 3 de Julho de 2019.
Adão e Eva segundo o relato do primeiro livro de Moisés sofreram dentre tantas mazelas o desterro cruel por conta da tache originelle, afinal, comeram do fruto proibido.

Segundo Melanie Klein [1] aquele que come do fruto do conhecimento é inevitavelmente expulso de algum paraíso, e eu comi deste fruto e acabei por aniquilar a terna ilusão construída em minha mente. O meu desterro é no mundo real. Esta ilusão em minha mente insana era o que para muitos é um fato, simples e corriqueiro, mas para mim é um vislumbre, e ao que parece inatingível: amar e ser amado.

Conheço bem cada tétrica nota desse velho e gasto estribilho como a ária de Dido [3] e seu profundo lamento ante a pira, tragédia esta que afetuosamente chamo de "a minha inexistente vida amorosa". Bem, até amor-próprio me falta. Os meus poucos amores reais estão se indo, minha mãe se foi...

Não me recordo de um acerto sequer, por isso concordo com Aznavour [2] que cantava "car mes amours sont mortes avant que d'exister".

Certa vez li em algum lugar que coleções de objetos são pequenas compensações que fazemos em nossas vidas. Bem, se isso for verdade e eu pensar por cada erro meu no campo de amor isso justificaria as coleções de relógios à corda, moedas, cédulas, militaria, alguns poucos selos, livros antigos, porcelana, discos (vinis de 33, 45 rpm e 78 rpm para o gramofone), penas para tinteiro, imagens de santos (uma que tive eram santinhos de papel)... enfim, até hoje nunca acertei.

Dentre minhas características penso que uma das mais marcantes é a existência de uma personagem, que aparece recorrentemente: o padre. Esse padre é sempre um bom e silencioso ouvinte, silêncio este que somente é quebrado por pequenos conselhos. Dito isso, escutei pacientemente na última sexta-feira p.p. o a relato auricular de Eva, confessando que ainda se contorcia por Adão, mesmo estando hoje com João.

Mesmo que não de forma plena, João é presente, Adão é passado (ou nem tanto) e nem conjectura sou. Nem uma delirante e febril hipótese na ilha de lost, ou nesta Ervilhanópolis. Quem sabe, numa vida vindoura.

O tolo aqui gosta de Eva. Eva gosta de Adão, e Adão não se importa minimamente com Eva. Assim de forma nua, crua e banal a nossa totentanz segue sua macabra ciranda, onde ninguém é feliz e todos caminham para o fim.

Sozinhos viemos. Sozinho vamos. Foda-se o meio (até eu me apaixonar feito tapirus terrestris mais uma vez).

[1] Melanie Klein, pisicanalista austríaca, (1882-1960);
[2] Charles Aznavour, cantor francês (1924-2018);
[3] Dido's lament, de Dido et Æneias (Z. 626) de Henry Purcell (1659-1695);

domingo, 13 de outubro de 2019

Coisas Horrendas


Desterro, 13 de Outubro de 2019.
Ao longo do tempo conheci alguns "iluminados das trevas". Gente que eu devo ao menos chamar de "curiosa". São o tipo de pessoas que acham que a sexualidade de uma pessoa pode "involuir" porque há um ano uma pessoa se entendia com a orientação "x". Com o tempo e um pouco maturidade essa pessoa se descobriu com a orientação "y", e essa foi a "involução". O que fazer, pensar ou sentir de uma pessoa assim tão "evoluída"? Devemos mesmo ter pessoas assim em nosso círculo de amizades? Como alguém julga assim tão fácil um amigo seu? E o pior, se diz amiga da pessoa objeto dos ataques.
Essas pessoas que tanto apreciam a erucção pública da "santidade", que recitam litanias aos quatro ventos, que ditam suas regras de "valores morais" são as pessoas mais obscuras que conheci. São verdadeiros nosferatus, que apenas querem que seus fúteis caprichos sejam saciados.
Neste desejo irrefreável de uma pura satisfação hedonista os "iluminados" atropelam tudo e todos de uma forma muito sutil quanto um Caterpillar desgovernado rumo ladeira a baixo, afinal, é só a autossatisfação que importa, isso aliado ao fato de que somente os “grandes iluminados” estão certos neste mundo.

Particularmente eu já tive algumas oportunidades de soltar o verbo nessas “almas caridosas”, mas creio que isso faça parte do meu processo de tolerância com o diverso, ou adverso, ou mesmo o simples exercício de paciência... Paciência, virtude que tanto me falta, por isso muitas vezes respiro fundo e toco o baile. Mas, quando o copo transborda, pouco me importo em rodar a baiana e se necessário for, lavar toda a escadaria do Bonfim com água de cheiro. Não me importo nesse sentido com pessoas ou lugares, não faço distinção nisso. Mas, respirar fundo, abstrair e fingir demência tem sido cada vez mais necessário nesse mundo de pessoas sem o mínimo de amor ao próximo, sobretudo numa questão tão íntima, delicada e involuntária como a questão da própria sexualidade de alguém. Pessoas “iluminadas” são elas que até hoje justificam o velho ditado: “a cruz nos peitos e o diabo nos feitos”.

Bem, como dizem, é muito difícil libertar os tolos das correntes que eles tanto veneram, então as duas pessoas objetos dessas poucas linhas tão mal escritas vão ter que conviver ainda por um bom tempo, até que um o a outra percebam que há algo de abusivo nessa amizade deles. Enquanto isso observo impassível os movimentos de cada um deles. Afinal, uma coisa é certa, cada um ali deve perceber por conta própria quem é o outro nessa relação de amizade. Eu, autor, particularmente não consigo muito ficar perto de quem não torce por mim, por minha felicidade, quem não se encanta com minhas alegrias e vitórias... Pessoas assim devem passar longe de nossas vidas. Quanto mais distante, melhor.

Contudo, é comum as pessoas buscarem aprovação dos outros em suas vidas, e na atual conjuntura desta história o meu colorido amigo não tem muitas opções de amizades verdadeiras e não tem apoio do seio de sua família. Então, esse ser “iluminado” para ele acaba sendo uma opção, onde ali ele pouco se apercebe que não há lugar para ele. Afobação não é o melhor meio para se ir em frente na vida.