sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Amor para com o Próximo

Há tantos significados para o amor que creio ser impossível escrever todos eles. O amor pode ser uma simples afeição, uma compaixão para com o próximo, um ato de misericórdia, uma mera atração, uma paixão avassaladora, um querer bem uma pessoa, um desejo secreto ou só libido.

Quem já não amou e foi amado? Estes sabem bem o que irei dizer: ruim com ele e pior sem ele! Mas mesmo com seus prós e contras da vida, o amor é algo celestial, divino, pois é paciente, não pede nada em troca e tudo perdoa. Essa pequena palavrinha de quatro míseras letras faz com que mudemos muitas coisas em nossas vidas, desde a forma de pensar até nossos atos e palavras. O primeiro contato que não é lá essas coisas, pois as pernas não obedecem, o coração dispara, temos falta de ar, boca seca e a língua trava.

É horrível, mas ainda bem que isso passa e vem a parte boa. O amor faz que nos tornemos seres melhores, repletos de carinho e complacência, fazemos tanto quando amamos que por vezes somos como Simão Cirineu que carrega a cruz alheia em suas costas.

Mas amar, independentemente do sentido deste amor é isso, é ajudar, compreender e zelar. Por isso estou tão encantado por você, você conseguiu algo muito difícil nesses tempos tenebrosos, que é a busca por algo sério. Por isso que eu te amo.

Por fim em um post scriptum digo que o amor e não apenas um nobre sentimento, mas uma virtude sem medida. Por isso ame a todos a sua volta. Pois o amor embeleza o mundo inteiro.


Desterro, 22 de Abril de 2009.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Um Ensaio sobre a Fraternidade

Já se faz tarde e as benditas idéias e pensamentos diversos estão pipocando em minha mente inquieta. Estou pensando em uma longa conversa que tive com um amigo esses dias, aliás, uma conversa que eu tive com até então um colega que vejo todas as semanas. No coleguismo ainda temos certas reservas, pois ainda não nos conhecemos o suficiente para revelar certos pontos de nossas vidas. Em certo momento, e não sei por que cargas d’água começamos a conversar e nos entender. Aquele de quem temos temores e receios muitas vezes infundados se mostra um grande amigo quando deixamos de ser beligerantes e baixamos a guarda. Desta forma obtemos o nosso brevet para ir às alturas do firmamento e assim chegar à liberdade, à igualdade e à fraternidade.

Notamos que essa pessoa pode ser mais próxima, mais amiga, e por vezes mais humana. É estranho quando mudamos a forma que vemos alguém, especialmente quando há toda uma formalidade em certas ocasiões; se abrir é se expor. Neste momento vemos o quanto estamos errados, o quanto somos temerosos e o quanto nos enganamos em relação aos outros. Seria muito bom se não houvesse nada disso, nada de medos e preconceitos, mas o mundo não é perfeito.

Mas o jeito é tentar mudar isso aos poucos, afinal como disse Lavoisier no século XVIII, “nada se perde e nada se cria tudo se transforma!” E nessa transformação vamos evoluindo, nos desbastando. Nesse processo nos conhecemos melhor e assim sendo conhecemos melhor o nosso próximo, o nosso irmão. Você um dia fora meu “algoz”, e hoje um verdadeiro amigo, um irmão consangüíneo. Isso é a fraternidade! Muito obrigado maninho.


Desterro, 20 de abril de 2009.

Testamento de Heilingenstadt



Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos. Iludido constantemente, na esperança de uma melhora, fui forçado a enfrentar a realidade da rebeldia desse mal, cuja cura, se não for de todo impossível, durará talvez anos! Nascido com um temperamento vivo e ardente, sensível mesmo às diversões da sociedade, vi-me obrigado a isolar-me numa vida solitária. Por vezes, quis colocar-me acima de tudo, mas fui então duramente repelido, ao renovar a triste experiência da minha surdez!
Como confessar esse defeito de um sentido que devia ser, em mim, mais perfeito que nos outros, de um sentido que, em tempos atrás, foi tão perfeito como poucos homens dedicados à mesma arte possuíam! Não me era contudo possível dizer aos homens: “Falai mais alto, gritai, pois eu estou surdo”. Perdoai-me se me vedes afastar-me de vós! Minha desgraça é duplamente penosa, pois além do mais faz com que eu seja mal julgado. Para mim, já não há encanto na reunião dos homens, nem nas palestras elevadas, nem nos desabafos íntimos. Só a mais estrita necessidade me arrasta à sociedade. Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava!
Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou! Pareceu-me impossível deixar o mundo antes de haver produzido tudo o que eu sentia me haver sido confiado, e assim prolonguei esta vida infeliz. Paciência é só o que aspiro até que as parcas inclementes cortem o fio de minha triste vida. Melhorarei, talvez, e talvez não! Mas terei coragem. Na minha idade, já obrigado a filosofar, não é fácil, e mais penoso ainda se torna para o artista. Meu Deus, sobre mim deita o Teu olhar! Ó homens! Se vos cair isto um dia debaixo dos olhos, vereis que me julgaste mal! O infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua. Tudo fiz para merecer um lugar entre os artistas e entre os homens de bem.
Peço-vos, meus irmãos (Karl e Johann) assim que eu fechar os olhos, se o professor Schimith ainda for vivo, fazer-lhe em meu nome o pedido de descrever a minha moléstia e juntai a isto que aqui escrevo para que o mundo, depois de minha morte, se reconcilie comigo. Declaro-vos ambos herdeiros de minha pequena fortuna. Reparti-a honestamente e ajudai-vos um ao outro. O que contra mim fizestes, há muito, bem sabeis, já vos perdoei. A ti, Karl, agradeço as provas que me deste ultimamente. Meu desejo é que seja a tua vida menos dura que a minha. Recomendai a vossos filhos a virtude. Só ela poderá dar a felicidade, não o dinheiro, digo-vos por experiência própria. Só a virtude me levantou de minha miséria. Só a ela e à minha arte devo não ter terminado em suicídio os meus pobres dias. Adeus e conservai-me vossa amizade.
Minha gratidão a todos os meus amigos. Sentir-me-ei feliz debaixo da terra se ainda vos puder valer. Recebo com felicidade a morte. Se ela vier antes que realize tudo o que me concede minha capacidade artística, apesar do meu destino, virá cedo demais e eu a desejaria mais tarde. Entretanto, sentir-me-ei contente pois ela me libertará de um tormento sem fim. Venha quando quiser, e eu corajosamente a enfrentarei.
Adeus e não vos esqueçais inteiramente de mim na eternidade. Bem o mereço de vós, pois muitas vezes, em vida, preocupei-me convosco, procurando dar-vos a felicidade.
Sede felizes!
Helligenstadt, 6 de Outubro de 1802.
Ludwig van Beethoven.
Obtido em "http://pt.wikisource.org/wiki/Testamento_de_Heilingenstadt"

*Obra: Beethoven em 1803, por Christian Horneman (1765-44) pintor dinamarquês, conhecido principalmente para retratos.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Medo

Quisera eu realmente poder entender o medo. O medo nada mais é do que o receio de algo, por vezes algo que aconteça ou não, ou o medo de alguém. Esse medo que nos paralisa diante de certas situações (ou incertas) faz que não consigamos alcançar o bem desejado. Porque paramos tanto para refletir e pesar nossos atos quando temos em mente o que queremos e sabemos as conseqüências de tais atos? Sabemos por vezes que a conseqüência final é o que realmente queremos e mesmo assim não fazemos nada para mudar esse quadro torpe. Por que o ser humano quer colher o que nunca plantou? E se lamenta por anos, se tortura por que não fez absolutamente nada para mudar. Só será findo tal calvário quando decidirmos o que queremos! Vontade e ação, eis a chave do enigma. Qual medo de tentar? Porque não ir adiante? Muitas vezes não temos o que perder, outras vezes simplesmente iremos ouvir um “não”, e mesmo assim ficamos indiferentes ao mundo a nossa volta. Já dizia o sábio Raul Seixas, “tente outra vez”.

Pombas¹! Vá! Ouse! Veja como é bom sentir a brisa na face num dia de primavera, veja como é bom tentar e conseguir! Não é difícil, basta querer! E já dizia Goethe, o gênio alemão: “seja ousado, e forças ocultas o ajudarão”. No fim de nossas vidas essa ousadia será o que vai pesar na balança de nossa vida. Dependendo do resultado saberemos se vivemos ou não. Saberemos se nossa existência terrena foi proveitosa ou não. Nesta vida só há duas opções: tentar e talvez desfrutar aquilo que buscamos, ou se lamentar no futuro de nunca ter tentado e assim não saber o que poderia ter acontecido. Mais uma vez repito a chave desse enigma: vontade e ação. Vamos tentar?

Faltou dizer: Se podes alguma coisa, tudo é possível ao que crê. Mar. 9:23

Desterro, 16 de abril de 2009.


¹ Elói Girardi, meu querido professor em 2005 no IEE.

domingo, 12 de abril de 2009

Amor Vincit Omnia

Aproveitando o feriado de sexta-feira santa para aproveitar a vida. A vida a dois. Como se tem tempo de sobra nestas datas, nada como poder ver o ser que amamos. Pequenos momentos, pequenos prazeres fazem toda a diferença. A boa companhia faz a diferença. Ontem foi um momento assim, noite de lua cheia, perfeita, alva, pura. A noite era um belo convite a um passeio à beira do mar, para assim contemplarmos a bela simplicidade do mar iluminado naquela noite. A dois tudo é mais divertido (e mais gostoso), até um simples jogo de damas se torna mais prazeroso. Nada como uma boa companhia para um bom jantar à luz de velas, um vinho chileno e uma música para se chegar no clima certo. Alias, com uma boa companhia o clima é certo. Acho que eu estou me apaixonando, e ao menos desta vez estou sendo correspondido. Se D’us em sua infinda sapiência criou algo melhor que o amor este ficou com ele no mais alto do firmamento. Hoje durante a nossa despedida no aeroporto percebi que correra uma lágrima em seu rosto, tristeza pela despedida, porém esta lágrima também será derramada de alegria em breve no nosso reencontro.

Desterro, 12 de Abril de 2009. Dia da ressurreição do Senhor.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ecce Lignum Crucis! – Eis o lenho da cruz!



Hoje é um dia santo, especial. Pois neste fatídico dia celebramos a paixão e morte de Nosso Salvador. Cristo se humilhou e tornou-se obediente até a morte na cruz (Fl. 2:8).
Neste dia, luto e consternação se fazem presentes em nossos corações. Mas há ainda na parte mais insondável de nossos corações, onde habita a esperança da ressurreição do Senhor. Esperança esta que devemos mesmo com o peso da dura cruz ter todos os dias dentro de nós. Quem dentre nós não tem o seu lenho, seu fardo a carregar dentre caminhos escuros e tortuosos? Creio que seja a fé a chave disto tudo. Pois penso que sem ela não vamos a lugar algum, nada sabemos e nem nada somos. Devemos hoje meditar sobre as XIV Estações do Caminho do Calvário, aliás, para mim são XV Estações na Via Crucis, sendo esta décima quita a ressurreição de Xto. A ressurreição que todos nós esperamos, a vida que tanto buscamos junto à luz da face do Criador. Por isso meus irmãos em Cristo, hoje é o dia de refletirmos sobre a paixão do Senhor, hoje é o dia também de fazermos uma minuciosa reflexão sobre nós mesmos, sobre o que somos e o que devemos ser.

Com mão rude e um coração repleto de infindas esperanças aguardando a vinda do Senhor.
S.D.G.
Desterro, Sexta-Feira Santa de 10 de Abril de 2009. A.D.

*Obra: El Cristo crucificado, ca. 1632, por Diego Velázquez (1599-60), pintor espanhol. 

sábado, 4 de abril de 2009

Credo in Bach



Um curioso credo que eu encontrei na internet.



Creio em Bach, o músico, Criador de harmonias celestes; e na sua arte da fuga , sua grande obra; que foi concebida pelo poder da sua mente magistral; nasceu da musa eterna, padeceu sob Leipzig, foi injuriado, sua música quase morta e sepultada, desceu à mansão dos esquecidos, ressuscitou ao toque de Felix Mendelssohn Bartholdy; subiu aos céus, donde há de vir a julgar os seus interpretes . Creio em Bach, na sua música celeste, na comunhão dos intérpretes, na remissão dos pecados da orquestração barroca, na música eterna. Amém.

N.S.D., 04 de Abril de 2009.


O Retrato



Nesta simples noite (Noite para se ouvir “Intermezzo de Sonho de uma noite de verão” de Mendelssohn). Coisas diferentes me passaram pela minha inquieta mente. Sobre tudo ao ver um retrato de um amigo. Era algo, claro, como se fosse a imagem gravada no papel fotográfico de um velho lambe-lambe. Este retrato me passou por alguns instantes uma serenidade, algo angelical. Era tudo branco e imaculado como o Sacré Coeur.
E ao mesmo tempo esse branco me recorda formas alvas, claras, divinas, a pureza lirial, o sublime dom da criação, a inocência e a pureza, de não dadas como crianças passeando alegres sobre o sol da primavera, é insondável. Eis a graça que pedimos ao Soberano, poder um dia chegar ante ele com as mãos puras como a face do homem do retrato. Seu olhar era tocante, distante, indescritível... Ao mesmo tempo que nos passa serenidade e tranqüilidade, há também no fundo um ar triste e incompreensível mesmo aos mais letrados. Esse retrato parece mudar de forma conforme o ângulo do qual o contemplamos. Gostaria de ser puro tal como o que vi em tal retrato. Ele me fez transcender a visão deste mundo, e ver como as coisas mais simples são as mais belas.

N.S.D., 04 de Abril de 2009.

*Obra: Study for The Quarrel of Oberon and Titania, ca. 1849 por Joseph Noel Paton (1821-01), pintor e escultor escocês.