quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dois Corações

     Desterro, 20 de junho de 2024.

    Abaixo algumas ideias avulsas, já que ainda não terminei de escrever. Alguma coisa pode estar sem sentido ou fora dele, mas aos pouco vou arrumando, contudo gostaria de compartilhar com vocês esse texto que ganhou o nome de um velho dobrado. 


    Namorar alguém que não estamos apaixonados. É necessário, uma vez que o amor é algo que se cultiva, nasce, cresce e floresce. Por outro lado, a paixão é algo que logo perece, acaba tal qual fogo de palha. 

    Com a paixão, acabamos por conversar tudo de uma só vez, como se estivéssemos sedentos por aquilo, como se não houvesse amanhã. Queremos o outro tal qual o entorpecido busca o torpor oferecido pela droga, é isso que a paixão nos faz: nos torna dependentes quimicamente, psicologicamente, e nos torna também burros, tolos, vulneráveis, irracionais, causando uma verdadeira confusão em nosso cérebro, corpo e vida. Por outro lado, o amor, é lentamente construído, cultivado com a pessoa que hoje é desconhecida, vamos conversando pouco a pouco, conhecendo lentamente, vivendo cada pequeno instante, onde tudo é construído: o amor, a cumplicidade, s sonhos, donde vamos fazendo sempre novas descobertas, gostos em comum, limitações... Nada disso há na paixão, que como já sabemos é sempre fogo de palha, e como tal não dura absolutamente nada. 

    Quando observamos os casamentos de antigamente, claro que havia alguns problemas, e inclusive graves diria eu, como a esposa não poder divorciar-se porque além de durante muitos anos a lei do divórcio não existia, ela própria não tinha uma renda, autonomia para sustentar-se. Isso além de toda a pecha que a própria sociedade iria imputar nesta situação. A ideia aqui não é romantizar abusos. 

    Mas nesses casamentos arranjados a coisa tinha por hábito de durar mais, pois não era alicerçado nas inconstâncias da paixão que tanto nos causam mazelas até hoje. Nesses arranjos as pessoas tinham que se conhecer lentamente no meio da relação, nos chamados "namoros de sofá", havia um certo "medo" (ou seria respeito?), e com o tempo um ia conhecendo o outro, lentamente.

    Hoje nesses processos céleres de tinder e outros tantos, todos afins, há uma grande dose de imediatismo, pois num tinder da vida, a maioria das vezes as pessoas não querem conversar, não querem se conhecer, muitas vezes nem sair, ou mesmo apenas sexo. Elas querem apenas e tão somente o "like". Hoje as pessoas se encantam apenas com o físico e não conseguem ver como alguém pode ser bom para ela: é o tal amigo, só isso. "Te amo como um amigo, como um irmão", eis a tão temida "friendzone". Mas essa pessoa quer sempre tratamento vip, com carinho, amor, compreensão, dignidade, companheirismo, quando muito se encanta apenas com o que vê fisicamente no outro, pouco importando trato ou gostos em comum.

    Um relacionamento para ser longo e estável que ser construído lentamente, no dia-a-dia, e não todo de uma única vez, nu curtíssimo espaço de tempo, como aconteceu na história de Romeu e Julieta. Ali obviamente não é uma história de amor, e sim as possíveis consequências de dois idiotas apaixonados um pelo outro. É muita estupidez achar que aquilo é amor. Amor é um casamento antigo, arranjado, e que com o tempo se aprende a amar, e no final da vida um não vive mais sem o outro, muitas vezes literalmente um "vai" atrás do outro para o além. 

    Temos que deixar de ser tão imediatistas, especialmente os gays que sempre viveram às margens da sociedade e hoje com alguma liberdade vivem uma vida vazia, líquida, fútil, não percebendo que mesmo que aproveitem a beleza fugaz da juventude, um dia que não tardará, essa beleza irremediavelmente irá acabar. E desta forma pergunto: e o que sobrou? Uma "larga" experiência em dar o cu?

    Tudo é tão efêmero, e as pessoas ainda "contribuem" para isso sendo mais fúteis. É uma triste realidade. 

    Eu encontrei no FB uma página católica intitulada "Catolicismo Posting", e nesta página há uma postagem de um tal André Costa (@andretcosta) dizendo: "Ninguém casa por amor, casamos para aprender a amar! Românticos precisam superar o "amor acabou" como justificativa viável par terminar um casamento. É no velório da paixão que o amor nasce!"

    Outro ponto que deve ser elucidado aqui é o fato que poucos se atentam: nós não somos descartáveis! Mas somos assim tratados, e pior, tratamos o outros assim. Tudo bem que em vários casos a situação torna-se insustentável, desta forma fica insuportável um remendo efetivo na relação, contudo, para a grande maioria das pessoas é mais fácil troar o parceiro do que tentar algo novo com o mesmo parceiro. Fico reparando nos gays e em como eles agem diante dos problemas. Sei também que boa parte de uma geração foi tomada pelo "bum" do HIV, e assim perdemos uma referência de toda uma geração, perdemos a referência de como poderíamos ver essa geração anterior em relacionamentos estáveis e saudáveis. Tudo bem que cada um é livre para viver um relacionamento como bem entender (ainda bem né), seja não-monogâmico, poli-amor, relacionamento fechado, etc. Cada um faz o que quiser, e se isso for bom para ambos.

    Mas o foco aqui são os relacionamentos onde as pessoas não se apaixonam antes... Voltando, então eu fico pensando no torpor que sentimos quando estamos apaixonados Há toda uma confusão no cérebro, e é claro que isso é uma desordem que gera toda uma gama de sintomas, entre eles: euforia, aumento de energia, insônia, perda de apetite, ou algum outro distúrbio alimentar. Mudanças de humor são sentidas e isso tudo é comparável a um quadro de dependência química. 

    Segundo um estudo publicado no Journal of Psychophysiology os apaixonados passam 65% do tempo em que estão acordados pensando no ser "amado". Tudo isso altera drasticamente os nossos níveis de serotonina, e isso leva algum tempo a voltar ao normal. 

    Depois a oxitocina vai voltando, e é ela que é associada a uma forma de amor mais calma e madura.

    Tudo isso e essa reflexão toda encontra base além das minhas dinâmicas e ausência de relacionamentos na minha vida. 

    Esses dias encontrei no Instagram um estudante de psicologia (sua conta é @caiopimentelpsi) e ele diz: 

"É possível um relacionamento com alguém que você não é apaixonado dar certo?

    Eu acho que tem bem mais chances de dar certo do que um relacionamento passional. Exato! Um relacionamento que começa com pensamento crítico, com racionalidade e ponderação, tem muito mais chances de dar certo do que um relacionamento baseado em paixão. 

    Você vai começar um relacionamento com alguém que você não gosta?

    Não existe só não gostar de paixão, criatura! Tem uns oitenta tons de cinza nessa paleta, você fica com alguém às vezes, o date nem sempre é tão bom, aí vocês conversam, veem que tem as afinidades, que pensam da mesma maneira sobre um monte de coisas. Fazem o segundo date um pouco melhor, conversam sobre objetivos em comum, e assim as coisas vão se construindo com base em respeito, tempo e paciência. 

    Mas isso parece chato pra caralho pra mim!

    Claro! Porque o referencial de relacionamento que a gente tem hoje é: fui pro Vila Mix, ou pro baile, ele foi uma das oito bocas que eu beijei naquela noite. Fui para a casa dele, fiquei lá um final de semana inteiro a pau e água e agora a gente vai ter um namoro feliz e saudável sendo que a gente nem sabe o nome um do outro!

    Ah, mas não precisa ser assim também!

    Você gosta de oito ou oitenta e gosta da paixão, eu gosto da raiva, nem por isso eu agrido os outros na rua.

    Tá! Qual é o seu ponto?

    A gente sente sentimentos, mas a gente não se guia por eles, eles são passageiros, não são os maquinistas.

    E como você faz para ão se apaixonar?

    Não me apaixonar? Quem disse que eu não me apaixono? Eu me apaixono três vezes na semana; semana passada foi com a Gal Gadot e Alessandra Negrini.

    Ué? Como assim?

    Eu simplesmente não me guio por isso, eu tenho os planos que eu fiz em momentos de sobriedade, eu não vou abandonar eles por que eu tô apaixonado. Paixão é química e química passa, e passa rápido. 

Ah! Não é possível que você segue essas coisas! 

    Olha, se você quer questionar como eu vivo para poder baixar a régua da sua disciplina eu tô plenamente confortável. Não vai ser nem a primeira, nem a última vez que fazem isso. Quem vive pela espada morre pela espada e quem vive pela paixão, bom, você sabe."

    

    É isso que esse estudante de psicologia chamado Caio disse, mas a questão é como colocar isso em prática. Romantizou-se essa paixão como sinônimo de amor e todos nós hoje passamos esse trabalho. Gostaria muito de algo assim, simples e racional. Ou só um relacionamento. 

sábado, 23 de julho de 2022

O irmão que não ama o próximo

 Nossa Senhora do Desterro, 23 de julho se 2022.

Complicado começar a discorrer sobre um tema do qual domino muito bem, mesmo estando profundamente apoquentado com um fato que me ocorreu a pouco nesta noite. Para ser mais justo, o fato é que é algo que tem me ocorrido desde algum tempo, então não é nenhuma novidade. O sentimento que habita em mim hoje é uma mistura do asco da egolatria com o horror do acolhimento porco.

Há nesta "receita" uma generosa pitada de falta de empatia na irmandade que vivo, afinal, quando o amigo te chama de irmão, você crê que é algo mais sério e tangível. Nesta premissa de irmãos, como bom irmão ouvi as mazelas do meu próximo, ajudei, ouvi, acolhi, aconselhei, até briguei quando necessário. Fiz pelo próximo por minha própria vontade, aquilo que julguei e desejei até que fosse feito por mim, e seguindo os preceitos, não esperando nada em troca. Mas quando me deparo, estou na mesmíssima situação, e pergunto: fui acolhido? Houve alguma empatia? O que vejo são apenas pessoas que desejam ser servidas, que não veem que podemos nos ajudar. Em suma, nem por fofoca perguntou. 

Hoje uma coisa ficou muita clara: eu me vi sozinho e mais uma vez preterido pelo próprio algoz de meu irmão. Certa vez ouvi os lamúrios dos meus por cerca de cinco ou seis horas, e jamais ouvi daquela boca queixosa a pergunta: por que sofres meu irmão? Só posso dizer que nossas histórias são iguais, mas o apoio não.

Fala-se tanto em amor ao próximo, mas recordo que o amor não foi amado (S. Franciso?), e ainda recordo mais, será que "dedicando-vos mais amor, serei por isso menos amado?" (II Cor 12:15).

São coisas e pessoas assim que encontro ali. No quesito empatia, de quem eu menos esperava deu um banho.

Meu processo pessoal hoje é de ressignificação de tudo o que está a minha volta, e a lista parece não parar de aumentar. Recordo por fim o capitão da antiga força pública este Estado, Osmar, que em seu livro sugeriu implementarmos o patifismo. Gente pra isso, não faltará para um novo partido.

sábado, 26 de outubro de 2019

Cheio de Si... ou eu cheio de Ti


Desterro, 24 de Outubro de 2019.

Numa aminada conversa com alguns amigos surgiu sem muita demora o famoso (e doloroso) assunto que é inerente a todos os seres humanos em algum momento de suas vidas: o amor não correspondido. Geralmente imagino eu que isso seja logo no primeiro amor, afinal, vocês estão lendo as palavras escritas pela mão de alguém que credita que o primeiro amor é uma maldição e nunca dá certo. Sabe como é, experiências e desventuras pessoais.

Devo propedeuticamente situar você leitor em algumas coisas: nessa curiosa conversa o meu “objeto de desejo” se fazia presente como sempre; como não serei correspondido estou tratando de seguir com a minha vidinha como é possível, como se diz, aberto a possibilidades e conhecer novas pessoas. Então neste ínterim conheci de fato uma nova pessoa, que pra variar não deu certo, pois, após ficamos juntos, ela disse que tem outro. Sobrei.

Nesse arranjo no mínimo dissonante, ouvi da menina dos meus olhos, que eu não deveria procurar mais a outra pessoa, - e ela já tinha me procurado – que eu deveria me valorizar, e deixar a outra correr atrás de mim, “pois isso faz um bem danado para o ego”.

Em um par de segundos entendi algo que havia ali: eu sempre inflei seu ego correndo atrás e fazendo toda a sorte de favores – alguns até difíceis e complexos. Na hora do aperto meu telefone sempre toca para que eu ouça uma súplica. Vem cá, tenho cara de Deus pra ficar atendendo súplicas e pedidos?

Outro ponto crucial nesta história: basta eu desaparecer um pouco que ela surge milagrosamente tais como vendedores de guarda-chuva em dia de dilúvio perguntando se estou bem, ou porque sumi. Afinal, quem quer perder alguém que fica ali morrendo, padecendo e fazendo tudo por ti? Absolutamente ninguém. Quanto eu tinha lá os meus 16 ou 18 anos, minha falecida mãe me disse que era maravilhoso ter alguém morrendo e padecendo pela gente. Acho que foi o único conselho nesse sentido que ela me deu a vida toda. Pouco falamos sobre minhas desventuras, o mesmo ocorre com meu pai.

Numa das vezes que desapareci, recebi uma mensagem mais ou menos assim: “não quero que sumas da minha vida, mas se isso te fizer bem, ok”. A leitura que faço hoje é triste, realista e cruel, sou apenas uma bengala, muleta, algo (e não alguém) que pode ser usado quando necessário.

Esse é o triste mundo líquido de Bauman.

O Pecado Original


N. S. D., 3 de Julho de 2019.
Adão e Eva segundo o relato do primeiro livro de Moisés sofreram dentre tantas mazelas o desterro cruel por conta da tache originelle, afinal, comeram do fruto proibido.

Segundo Melanie Klein [1] aquele que come do fruto do conhecimento é inevitavelmente expulso de algum paraíso, e eu comi deste fruto e acabei por aniquilar a terna ilusão construída em minha mente. O meu desterro é no mundo real. Esta ilusão em minha mente insana era o que para muitos é um fato, simples e corriqueiro, mas para mim é um vislumbre, e ao que parece inatingível: amar e ser amado.

Conheço bem cada tétrica nota desse velho e gasto estribilho como a ária de Dido [3] e seu profundo lamento ante a pira, tragédia esta que afetuosamente chamo de "a minha inexistente vida amorosa". Bem, até amor-próprio me falta. Os meus poucos amores reais estão se indo, minha mãe se foi...

Não me recordo de um acerto sequer, por isso concordo com Aznavour [2] que cantava "car mes amours sont mortes avant que d'exister".

Certa vez li em algum lugar que coleções de objetos são pequenas compensações que fazemos em nossas vidas. Bem, se isso for verdade e eu pensar por cada erro meu no campo de amor isso justificaria as coleções de relógios à corda, moedas, cédulas, militaria, alguns poucos selos, livros antigos, porcelana, discos (vinis de 33, 45 rpm e 78 rpm para o gramofone), penas para tinteiro, imagens de santos (uma que tive eram santinhos de papel)... enfim, até hoje nunca acertei.

Dentre minhas características penso que uma das mais marcantes é a existência de uma personagem, que aparece recorrentemente: o padre. Esse padre é sempre um bom e silencioso ouvinte, silêncio este que somente é quebrado por pequenos conselhos. Dito isso, escutei pacientemente na última sexta-feira p.p. o a relato auricular de Eva, confessando que ainda se contorcia por Adão, mesmo estando hoje com João.

Mesmo que não de forma plena, João é presente, Adão é passado (ou nem tanto) e nem conjectura sou. Nem uma delirante e febril hipótese na ilha de lost, ou nesta Ervilhanópolis. Quem sabe, numa vida vindoura.

O tolo aqui gosta de Eva. Eva gosta de Adão, e Adão não se importa minimamente com Eva. Assim de forma nua, crua e banal a nossa totentanz segue sua macabra ciranda, onde ninguém é feliz e todos caminham para o fim.

Sozinhos viemos. Sozinho vamos. Foda-se o meio (até eu me apaixonar feito tapirus terrestris mais uma vez).

[1] Melanie Klein, pisicanalista austríaca, (1882-1960);
[2] Charles Aznavour, cantor francês (1924-2018);
[3] Dido's lament, de Dido et Æneias (Z. 626) de Henry Purcell (1659-1695);

domingo, 13 de outubro de 2019

Coisas Horrendas


Desterro, 13 de Outubro de 2019.
Ao longo do tempo conheci alguns "iluminados das trevas". Gente que eu devo ao menos chamar de "curiosa". São o tipo de pessoas que acham que a sexualidade de uma pessoa pode "involuir" porque há um ano uma pessoa se entendia com a orientação "x". Com o tempo e um pouco maturidade essa pessoa se descobriu com a orientação "y", e essa foi a "involução". O que fazer, pensar ou sentir de uma pessoa assim tão "evoluída"? Devemos mesmo ter pessoas assim em nosso círculo de amizades? Como alguém julga assim tão fácil um amigo seu? E o pior, se diz amiga da pessoa objeto dos ataques.
Essas pessoas que tanto apreciam a erucção pública da "santidade", que recitam litanias aos quatro ventos, que ditam suas regras de "valores morais" são as pessoas mais obscuras que conheci. São verdadeiros nosferatus, que apenas querem que seus fúteis caprichos sejam saciados.
Neste desejo irrefreável de uma pura satisfação hedonista os "iluminados" atropelam tudo e todos de uma forma muito sutil quanto um Caterpillar desgovernado rumo ladeira a baixo, afinal, é só a autossatisfação que importa, isso aliado ao fato de que somente os “grandes iluminados” estão certos neste mundo.

Particularmente eu já tive algumas oportunidades de soltar o verbo nessas “almas caridosas”, mas creio que isso faça parte do meu processo de tolerância com o diverso, ou adverso, ou mesmo o simples exercício de paciência... Paciência, virtude que tanto me falta, por isso muitas vezes respiro fundo e toco o baile. Mas, quando o copo transborda, pouco me importo em rodar a baiana e se necessário for, lavar toda a escadaria do Bonfim com água de cheiro. Não me importo nesse sentido com pessoas ou lugares, não faço distinção nisso. Mas, respirar fundo, abstrair e fingir demência tem sido cada vez mais necessário nesse mundo de pessoas sem o mínimo de amor ao próximo, sobretudo numa questão tão íntima, delicada e involuntária como a questão da própria sexualidade de alguém. Pessoas “iluminadas” são elas que até hoje justificam o velho ditado: “a cruz nos peitos e o diabo nos feitos”.

Bem, como dizem, é muito difícil libertar os tolos das correntes que eles tanto veneram, então as duas pessoas objetos dessas poucas linhas tão mal escritas vão ter que conviver ainda por um bom tempo, até que um o a outra percebam que há algo de abusivo nessa amizade deles. Enquanto isso observo impassível os movimentos de cada um deles. Afinal, uma coisa é certa, cada um ali deve perceber por conta própria quem é o outro nessa relação de amizade. Eu, autor, particularmente não consigo muito ficar perto de quem não torce por mim, por minha felicidade, quem não se encanta com minhas alegrias e vitórias... Pessoas assim devem passar longe de nossas vidas. Quanto mais distante, melhor.

Contudo, é comum as pessoas buscarem aprovação dos outros em suas vidas, e na atual conjuntura desta história o meu colorido amigo não tem muitas opções de amizades verdadeiras e não tem apoio do seio de sua família. Então, esse ser “iluminado” para ele acaba sendo uma opção, onde ali ele pouco se apercebe que não há lugar para ele. Afobação não é o melhor meio para se ir em frente na vida.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Mãe


Desterro, 03 de outubro de 2018.

Mãe,

Teu dia mais uma vez chegou, e pela primeira vez já não estais mais comigo. A festa deu lugar ao luto fechado, a alegria deu lugar à dor, os parabéns deram lugar à saudade. O dia que eu mais temi na vida finalmente chegou, foi no dia de Nossa Senhora das Dores em que partisse tão cedo... Foram 55 anos de lutas, 55 anos de fé, 55 anos de bom combate, 55 anos de amor.

Tanto lutaste, mas os anos foram cruéis contigo, assim a fatídica noite chegou e a morte, e a morte, essa personagem inexorável finalmente fez a sua infame visita para que a fria sepultura pudesse mais uma vez acolher teu pequeno e frágil corpo. Digo mais uma vez, pois o ventre que te gerou foi como um túmulo para ti, ou mesmo pior; no dia que foste a terra te acolheu mais que o ventre que te gerou. Esse ventre apenas te pôs no mundo, e esta criatura é indigna de ser chamada de “tua mãe”. Vi suas dores e vi o que sentias. Figuradamente busco culpados, os encontrei e recordo bem deles, isso basta.

Quantas mentiras engendram com teu nome... quanta dor te causaram, e o pior, gratuitamente... Se você minha mãe fosse deixada na Roda da Santa Casa não terias sofrido tanto! Não consigo compreender como conseguias ser ainda feliz, positiva, tu sempre com um sorriso no rosto mesmo com uma como “mãe” como aquela... com tanta dor em casamentos fracassados, constantes mudanças, e muitas delas nas costas foste um exemplo de vida!

Como foi excruciante ver-te numa eça, como foi desolador ver tua dor, tanto física como a dor da tua alma. Foste num pequeno ataúde, o que peguei de lembranças na sua casa coube numa mochila, e o que sinto não cabe em mim.  

De tanto te privas-te para dar até de comer aos teus filhos e até isso tua “mãe” te negou, até o amor ela te negou.

Por isso sempre compreendi e aceitei o que dizias, que havias nascido do ventre errado, e quem deveria ter te gerado era a tua tia angelical.

O que vou fazer sem ti?

O que hei de fazer com essas escumalha a minha volta? Escumalha essa que não pode mais ser acrisolada, não há mais possibilidade de epifania, purificação, remissão. Consummatum est.

No dia das mães, éramos nós dois, e não haverá mais um. Nunca mais.

Eu não sei o que é pior, a tua abrupta e precoce partida ou saber como te trataram a vida toda. Contudo, o pior mesmo é ver que meu anjo voltou para o céu como uma luzente estrela, assim como é horrível ver que a ordem natural das coisas foi invertida. Você no céu e alguns demônios da terra, mas como eu digo: que vivam muito e vivam bem, pois os mortos não sofrem com o remorso.  

Mesmo depois de tudo, não quero vingança não, quero apenas e tão somente justiça. Aprendi contigo a virtude da paciência e ainda em minha carne verei esta justiça de D’us.

Quando essa minha agora mais que infeliz existência acabar, vamos nos ver mais uma vez, o dia eterno vai amanhecer para mim, viverei minha páscoa e assim serei feliz. Felicidade... Palavra complicada, que você tanto quis ver em minha vida e acabou não vendo, quem sabe por fé seremos felizes juntos num mundo metafísico.

Em meio a minha dor atroz encontro uma luz débil, mas que me traz algum alento: você descansou, te livras-te da dor daquela máquina hedionda que por anos a foi te manteve viva, já não sofres mais com a vilania dos teus. Agora vês a verdade sem véus e poderás ver muito mais aí, e assim serás livre do mal de uma vida inteira.

Seja feliz aí, minha mãe.

O pior de tudo também é que nem morta te dão paz. Nem da calúnia escapasse, e isso só me leva a pensar no quão mau-caráter alguns podem ser, quão desumanos podem ser os que foram na tua casa falar de ti.

Hoje só me restam a dor, saudade, paciência, raiva, rancor, mágoa e um fanal de esperança.

Tua partida me mostrou o pior do ser “humano”, onde nem teu pai foi poupado de tamanho furor.
É por pessoas assim que o mundo é o que é uma fétida latrina onde temos que conviver com demônios que eructam santidades em seus sepulcros caiados.
Se existe um D’us bom, ele será muito justo e hei de ver sua justiça.

Descanse. Fique em paz, e busque aí a felicidade que aqui você não teve.
Dê um beijo no vô por mim.
Sempre vou te amar.   


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O Sepulcro do Belo

O verniz da beleza não se mantém, é frágil e tal fragilidade sempre passa despercebida. E nessa sutil debilidade que poucos percebem que possuem, cai a máscara e contemplamos a vil criatura sem véus tal como Dorian em seu afamado retrato. Se a vaidade e o orgulho forem pecados, assumo a minha felix culpa envaidecendo-me de intelecto, pois envaidecer-se da própria beleza é um apanágio próprio dos tolos, pois a beleza embora cativante é sempre transitória, o tempo é uma personagem implacável contra o belo e o físico. Por outro lado a sabedoria pode aumentar com o tempo, basta você querer.

Certa manhã eu conversava com alguns amigos e acabei utilizando uma palavra um pouco mais rebuscada, e tive que ouvir: "amigo, não usa palavras difíceis porque eu não entendo". O invejei, pois os apedeutas são infinitamente mais felizes, afinal, como reza o adagiário popular, a ignorância é uma dádiva.

Considero que ao logo dos anos recebi algumas dádivas, mas a paciência definitivamente não está entre as por mim recebidas. Isso me traz uma grande dívida a ser saldada, pois como não sou um ser eutímico já não tenho tanto tato com o mundo a minha volta. 

Como disse, há um preço, um insulamento, um eterno exílio onde se espera por uma absolvição que nunca virá.

Reza o adagiário popular que beleza não põe a mesa, e eu completaria dizendo que intelecto não põe cama.

N.D.E., 13 de agosto de 2018.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Longa Noite

N.D.E., 21 de junho de 2018.

Hoje é o solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Em alguns grupos falou-se nisso, mas o penso que o que faltou é algo simples porém profundo, algo que passou desapercebido por muitos...

E é a luz que passou desapercebida entre muitos irmãos. É com essa mesma luz que reconhecemos um ao outro, e nas trevas me socorro de um João, tão santo quanto o discípulo amado, o místico da Cruz.

João da Cruz, espanhol do século XVI, carmelita experimentou o que Cristo vivenciou quando proferiu as célebres palavras "meu Deus porque me abandonaste?". A mesma noite escura da alma  foi vivida por Edith Stein, filósofa atéia que encontrou o livro da vida de Santa Tereza e o tomou como verdade, deixando assim sua vida como era e passando a abraçar a vida religiosa.

Santa Teresa de Lisieux viveu a mesma dor da noite escura da alma, assim como Teresa de Calcutá. E hoje, penso que todos nós vivemos essa noite escura da alma que nada mais é que a nossa  jornada rumo à perfeita comunhão com o Grande Arquiteto. Mas essa escuridão é também uma crise de quem crê, a crise da dúvida da ausência de Deus, onde a fé vacila, a oração (ou o ritual?) torna-se vazia e excruciante, neste momento nos sentimos naquele lugar onde não há paz, "de onde mesmo da fé se duvida e onde a guerra virtude se faz": o desterro.

Porém, a noite escura é uma jornada como a de Paulo, onde "combatemos o bom combate, terminamos a longa jornada e mantemos a fé".

O que notamos no solstício é que a noite mais longa, porém no outro dia o astro rei voltará a brilhar e espalhar mais uma vez o dom da vida. E o que não notamos foi que a luz do dia será cada vez mais longa.

Não é a escuridão de um dia que importa, e sim a luz que volta a brilhar, cada vez mais.

A Loja tem leu lado noite escura, como cada indivíduo nela, e cabe a cada um compreender que amanhã o sol brilhará mais uma vez para um novo começo, onde o velho ficará no ontem.

A noite escura pode ser vista na Tábua de Delinear, onde vemos um templo escuro e a Escada de Jacó no meio dele, escada esta que leva para a luz.

Esta noite é a noite da dúvida, que será dissipada amanhã, onde "sobre as estrelas o dia amanhece, onde se ostenta a verdade sem véus, onde terminam embustes, onde há altos desejos e celestes vontades".

Indubitavelmente é vontade do bom Pai ver seus filhos no bom caminho. Façamos isso como irmãos que somos, unidos.

domingo, 17 de dezembro de 2017

L'amico è

N.S.D., 17 de dezembro de 2017.

O sol brilha impiedosamente, trinta graus na velha Desterro, ouço Stradella[1] enquanto congemino sobre a felicidade. Em especial a dos outros. Reza um dito popular que “torço pela felicidade dos outros, pois, gente feliz não enche o saco”. Verdade verdadeira como dizem os antigos. Hoje as redes sociais “denunciam” um pouco dos nossos movimentos, afinal, damos toda a informação gratuitamente. Me pergunto se a Gestapo tinha tantos dados, mas os damos para ser cools e bem aceitos pelos amigos, devemos então mostrar que somos felizes a todo pano.

Enfim, é nessa onda “tsunamesca” de profunda (e “autêntica”) felicidade que que traz aqui hoje nesse escaldante dia.

Parece piada, mas o youtube na tv começou a tocar o Ingemisco, de Verdi[2], leia o texto no rodapé[3]. Aproveitando o gancho, ingemisco tamquam reus, tento não atribuir algo de ruim a pessoas que se afastam dos amigos por estarem felizes, muito embora há um culpa rubet vultus ali. Essas redes sociais e a estranha necessidade de estar sempre chapado de ansiolíticos e antidepressivos, e a tola necessidade de mostrar sempre feliz diz muito sobre o vazio que as pessoas vivem.

Não creio que esse vazio e outras coisas muito sérias como depressão sejam falta de Deus, falta de ocupação, ou excesso de frescura. Mas, são doenças graves, mesmo assim, alguns teimam em aproveitar seu momento feliz com vários amigos, e quando algo dá errado, quando o namoro acaba, ou a fluoxetina não faz mais efeito e todos vão direto para o fundo do poço abraçar a Samara, ai se lembram de mim, querem conversar, querem ajuda, querem serem ouvidos sem julgamentos e reservas, compreendidos plenamente, esfericamente em todas as direções. Por que não querem compartilhar a felicidade deles comigo? Ao que parece alguns gostam de fazer os outros de muletas.

Recordo, em especial de um dia que disse para um amigo que eu estava feliz, bestamente apaixonado, e tive que ouvir um “eu não quero saber disso!”. Ok. As pessoas podem esfregar a felicidade delas na minha cara e na de tantos via facebook, instagram, onde elas como atores e atrizes de quinta fingem serem felizes. Quando eles tem felicidade, não compartilham um bom momento, nem a mesa, em um abraço ou sorriso. Se eu estou feliz e quero falar disso, sou rechaçado. E quando eles estão deprimidos, sozinhos e esquecidos, ai eu tenho que aturar. Meus ouvidos, para alguns são latrinas. 

Esses amigos estranhos, são tão quão réus, culpados de seu profundo egoísmo sádico que só me reservam o seu pior lado.

Há também aquele que espera um momento ruim seu para alfinetar, te por mais para baixo. Fico pensando, que tipo de gente cospe para cima? Se há mesmo a afamada “lei do retorno”, peço ao universo paciência, saúde, um balde de pipoca e um par de óculos escuros.

O que me compele a ajudar algum ególotra amigo que me procura em seus dias ruins? Caridade cristã? Amor ao próximo? Bem eu acredito que primeiramente esse próximo sou eu mesmo, depois os outros. O amor ao próximo começa com o amor próprio, e ele me faz estranhamente lúcido quanto a essas questiúnculas.

Não sou obrigado a nada.





[1] Alessandro Stradella, 1639-82, compositor barroco italiano, a obra em questão é Pietà Signore, erroneamente atribuída Louis Niedermeyer, comp. Suíço do século XIX. Partitura na Biblioteca do Congresso Americano: https://www.loc.gov/resource/sm1883.24142.0/?sp=2&q=Alessandro+Stradella%2F
[2] Giuseppe (Fortunino Francesco) Verdi, 1813 – 1901, compositor italiano, conhecido por suas óperas, La Traviatta, Il Trovatore e outras.
[3] Gemo, tal qual um réu, minha culpa enrubesce-me o semblante, poupa a quem está suplicando, ó Deus! (Tu) que perdoaste a Maria (Madalena), e ouviste atento ao ladrão, também a mim deste esperança. Minhas preces não são dignas, mas, tu (és) bom, age com bondade, para que eu não seja queimado pelo fogo eterno. Entre as ovelhas dispõe um abrigo, retira-me para longe dos bodes, coloca-me de pé à Vossa direita.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

É cada uma...

Desculpe-me os “educadinhos”, mas grosseria é fundamental. Não, não falo de uma grosseria pedreirão (embora hoje eu escreva sobre alguns desses pedreiros, em especial os liberi muratoris), mas uma grosseria na hora certa, sagaz, viva, ácida, cáustica mesmo. Não tenho muitas papas na língua, mas garanto que faço muito bem a linha sincero, mais que muitas pedras primorosamente lavradas e buriladas. Enfim, certas coisas devem ser ditas, na hora certa.

Ontem, a grande brincadeira foi uma vela, na verdade, um círio. Círios são sempre grandes em diâmetro, e logo ao acendê-lo com um fósforo, não se deve deixar o palito queimado dentro do círio, próximo ao pavio.  O palito, mesmo todo queimado quando se junta com a parafina continua queimando (já que a vela está acesa) e esse palito em combustão vai derreter uma das laterais da vela, deixando-a torta e fazendo-a queimar depressa. Ora, por que um círio? Simples, como seu diâmetro é maior, a cera não escorre, e sim evapora lentamente, por isso que círios levam mais tempo para chegar ao fim.   Por isso que eu não me preocupo mais com cagança de velas.

Deixar palitos dentro da vela é a mesma coisa que secar as mãos com papel toalha no banheiro e não se dar o trabalho de abrir a lixeira para jogar lá dentro o papel usado. O que fazem os meine geliebten brüder? Jogam o papel usado sobre a tampa da lixeira, fechada mesmo. Até então, numa precavida visão a distância só tenho notado papel toalha.  

Fico me perguntando se a cunhada fica catando papel cagado de merda pela casa. Ah, lembro que geralmente que faz coisa assim é cachorro. Vai entender.

Ainda sobre ontem, um papo estranho surgiu à mesa durante o jantar, tive que fazer “aquela piadinha”, não de graça, claro, mas foi bom ver a expressão de cada um, e nenhum fez cara de surpresa.  Eis a verdade que me afilhado pedira minutos antes, a verdade que todos falam as minhas coisas e omitem na minha presença. Por que não fazer o mesmo já que não tenho que provar que sou melhor que ninguém...

Outra coisa curiosa de ontem foi uma história paralela, recebi uma mensagem que dizia “meu nível de egoísmo é mais de 8000”. Bem ao menos houve um reconhecimento.

A história é a seguinte: eu estou feliz, e compartilho uma boa-nova com alguém, e este não quer saber, e ainda dá pequenos surtos. Não tenho culpa da infelicidade ou mediocridade dos outros.


Queres saber se é teu amigo, teu irmão? Diga que você está muito bem, que está no melhor momento da sua vida. Observe atentamente a reação. 

domingo, 29 de outubro de 2017

Ubi Charitas et Amor, Deus ibi est.



N. S. D., 29 de outubro de 2017.

Missa na Irmandade do Rosário, cantei com o coro, tudo tranquilo e habitual.
O que chamou a atenção hoje foram as leituras, e é claro, a homilia.

Quanto às leituras, a primeira foi do Livro do Êxodo, capítulo 22, versículos 20 a 26, onde há uma exortação para não oprimir o estrangeiro, não fazer mal à viúva, não cobrar juros caso se empreste dinheiro. Algo como não faça ao próximo o que não queres te façam a ti[1]”. Mas confesso que nunca compreendi muito bem os versículos 21-23 e 26, onde os maltratados gritarão por Deus e Ele matará a espada o malfazejo, mas o vers. 26 fala que Ele é misericordioso.

Mais uma vez caio do dilema da Misericórdia versus Justiça, onde para alguns são opostos, e para outros são sinônimos.  Sob o motto Misericordia et Justitia o Santo Ofício perseguia os “hereges”... Fico imaginando se o lema fosse “queimar e matar”. Um dia acabarei com essa dúvida de justiça e misericórdia, e que seja durante o tête-à-tête[2] que teremos para contemplar o Criador.

Mas, voltando às leituras, a seguinte foi o Salmo 17 em resposta à primeira leitura. Este salmo relata o amor que temos a Deus por Ele ser nosso refúgio, salvador e senhor. Já a Segunda Leitura foi retirada da Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses (1,5c-10) que relata o valor da Palavra e da Fé, divulgada por toda a parte, e a grande cereja do bolo dessas leituras é o Evangelho do dia: São Mateus 22:34-40, onde perguntaram a Jesus qual é o maior mandamento, e ele sem rodeios responde: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!' Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas.
Pelo óbvio ululante, não fica difícil de imaginar que os cantos dessa missa foram “O Novo Mandamento[3]”, “Onde o Amor e a Caridade[4]”, “Prova de Amor maior não há[5]”, e a homilia foi orientada por esta mesma palavra em comum em todas essas músicas e em duas leituras: amor.
Ouvi tanto falar em amor ao próximo, e fiquei pensando: o que mais vejo é o julgar do próximo, ou, o mais provável: falta de amor próprio.
Diante daquela quantidade absurda de amor, amor ao próximo e Deus no coração, lembrei-me de uma passagem da obra “O Auto da Compadecida” do imortal, "imorrível" e vivente eterno Alessandro Suassuna, onde encontramos João Grilo, Rosinha e Chicó que são interpelados por um mendigo que  pede pão. João Grilo nega o pedido, mas Rosinha dá o pão ao pedinte, e quando este se vai, ela diz: “Jesus às vezes se disfarça de mendigo para testar a bondade dos homens”.
Isso me remete a uma frase que certa vez vi na internet: “E se os homossexuais fossem um plano de Deus para testar seu amor ao próximo, você estaria salvo?”.
Um amor ao próximo, um ágape, sem credo, cor, gênero, raça, poréns, ou seja, incondicional.
Mas, como dizem, é mais fácil eu odiar nos outros aquilo que eu não gosto em mim.
Onde está esse amor da Igreja? Acho que devo perguntar ao Padre Krzysztof Charamsa.
Por fim, faltam espelhos por ai, mesmo que este fique em frente a quem não quer ver. Mas, ele está lá, é o que importa.  
Saindo da igreja, encontro uma parede pichada: “só através do amor é possível alcançar a paz!”




[1] A chamada Regra de Ouro ou Lei dos Profetas, em São Mateus, 7:12 e São Lucas 6:31.
[2] São Tomás de Aquino (1225-74), frade católico conhecido por sua teologia e filosofia. Aquino em seu “Adoro Te devote” nos trás: “Iesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sitio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae.” (Em pt.: Jesus, a quem agora vejo sob véus, peço-te que se cumpra o que mais desejo: que vendo o Teu rosto descoberto, seja eu feliz contemplando a Tua glória).
[3] “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei”, texto bíblico musicado pelo Pe. Ney Brasil.
[4] “Onde (há) o amor e a caridade, Deus aí está”, musicado pelo Pe. Ney Brasil.
[5] “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”, de autoria do Pe. José Webber.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O Homem Nu

Segunda-feira, dia 9, pela primeira vez alguém comentou que eu tenho defendido nas redes sociais a livre manifestação da arte em museus. É verdade, e permitam-me uma brincadeira, é uma verdade pura, crua e... nua.
Estranhei inclusive, pois demorou para que alguém notasse essas postagens e ideias, mas enfim, notaram, e recebi um comentário em uma conversa com um velho amigo que apenas comunicava que tinha lido tais ideias, logo não houve ataques e adjetivações, houve na verdade uma boa maturidade, esta que falta em tantas discussões hoje.
Mas eu perco as estribeiras? Claro! Sou um ser humano, nasci sobre a pecha da carne, e perco a paciência como qualquer um, perco a paciência em especial com quem não dispõe um pouco de tempo e boa vontade para discorrer sobre a tese, a antítese e a síntese. Vejo apenas opiniões já formadas por desconhecidos, onde alguém vê e compartilha a opinião de um terceiro desconhecido que é tido por muitas vezes como “formador de opinião”.
A arte é para escandalizar, provocar, contrariar... e fazer pensar. Eis a nudez do homem, nu, despido, desprovido de intelecto.  Se a tal mostra do MAM foi ou é arte, não sei, não sou crítico de arte. Alguns a consideram outros não, mas penso que muitos se escandalizaram no século XVI com Michelangelo[1] ao esculpir o seu Davi, ou com toda aquela nudez da Capela Sistina, ou com Caravaggio[2] na transição dos séculos XVI e XVII ao utilizar seus namorados como modelos para retratar santos em poses incomuns.  
Poderia citar mais, como a La Maja Desnuda (e depois vestida) de Goya[3], A Origem do Mundo, por Gustave Courbet[4] extremamente icônico ao retratar um nu frontal, uma vagina em close, o Abapuru de Tarsila[5] ou Lúcifer seminu e sedutor, sobre uma rocha como se pode perceber na obra Le Génie du Mal, esculpida por Geefs[6] para a Catedral de São Paulo, na cidade de Liège, Bélgica. Poderia citar o Cristo Velato de Sanmartino[7] (de longe a mais bela dessas obras). Curiosamente sempre encontramos um Cristo com poucas vestes nessas obras.  
A questão aqui não é a nudez! E sim uma imprudência dos responsáveis pela menina que a levaram naquele museu, pelo simples fato que crianças devem ser resguardadas desse e de outros tipos de abuso. Sou eu quem diz? Absolutamente, e sim o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA[8]) que veta esse tipo de exposição, de violência, risco, nudez. É lei, cumpra-se, e cumprir a lei é fazer justiça, e como reza um velho brocardo fiat justitia, pereat mundus[9]!
Seria aquela nudez a primeira que esta criança teria visto? Duvido muito. Essa criança deve ser exposta a essa nudez? Não, uma vez que ela não tem discernimento para o certo e o errado (como tantos adultos), a nudez vista furtivamente (e indevidamente) de seus pais em casa ao ir ao banho, será para uma criança diferente de uma nudez de um abusador? Eis aqui um enfático e sonoro não. Por isso todo esse cuidado.
Existe alguma diferença entre uma criança branca, de classe média, de família que segue os bons costumes, família esta que é defensora da moral, das virtudes, enfim uma família cristã e uma criança pobre, negra, morando em um barracão em uma favela, que por muitas vezes não possui nem o básico para viver com dignidade?
Recentemente encontrei alguns registros fotográficos, um deles é um corpo de uma mulher que fora assassinada, um corpo caído no chão, numa viela de favela, coberto por um lençol velho dado por um vizinho mais piedoso, e essa cena era assistida por várias crianças. Lembro também de outro registro, o de várias crianças se amontoando em um dos respiros de ar quente do metrô de São Paulo para se aquecerem em um inverno rigoroso. Candelária, alguém lembra? Crianças famélicas no tempo de um  governo federal dos anos 90, alguém se importa?
Por que uma criança merece ser protegida em uma redoma e a outra deve viver como um animal?
Vejo por ai, postagens em redes socais de um projetil, como o de um fuzil, e junto a imagem da bala há uma inscrição “chip para curar bandido”. Vale lembrar que o filho dos outros é sempre um bandido que deve ser morto, mas e se for o seu filho? Queria ver você dizer que ele não é mais seu filho, que ele agora é um delinquente, um bandido que merece morrer. Queria mesmo ver você ser forte e coerente o suficiente para puxar o gatilho enquanto você empunha a arma na cabeça do seu filho.
Esse é o tipo de pessoa de bem, de valores, classe média, cis, hétero, caucasiana e cristã que temos por ai, é essa pessoa que diz que “bandido bom é bandido morto”, e depois comemora a Páscoa de Cristo.
E falando em símbolos religiosos, que tal defender primeiro os terreiros que são atacados aos montes por ai, destruídos, vandalizados, queimados! E me alegro em dizer que não é o ISIS que faz isso (e não ponham palavras na minha boca, pois nem todo o mulçumano é terrorista). O ISIS não necessita fazer terrorismo no Brasil, por motivos óbvios. Afinal, temos até fiscal de c* alheio por aqui.
O que as pessoas não entendem é que ”Jesus tem pavor de gente de bem, Jesus detesta os fariseus (hipócritas), Ele tinha raiva dessas pessoas que fazem jejum, yom kippur e jogam cinza na cabeça, Ele tinha raiva do rico que dava esmola”[10], Ele tinha horror a defensores da moral e dos bons costumes. Cristo gostava dos excluídos, dos pobres, das prostitutas, dos samaritanos, hoje procuraria transexuais[11].
É excruciante dialogar com pessoas que não aceitam uma ideia diferente, que travestem seus preconceitos com a roupagem da opinião e do direito de manifestação “intelectual”. Poderia escrever aqui sobre as palavras παις e δουλος[12] que aparecem na Septuaginta, e em especial em São Mateus 8 e São Lucas 7, onde é possível que o Centurião de Cafarnaum não fosse ter com Jesus para curar seu escravo ou mesmo um filho. Então quem era? Explanar sobre isso hoje é a mesma coisa com a qual Cristo nos alertava quando disse para não jogar pérolas aos porcos[13]. Mas mesmo assim é imperioso explicar coisas mais urgentes que grego antigo na Septuaginta, é necessário combater o flagelo da ignorância, é necessário conversar e muito com essa gente que primeiro observo a idade, se for velha, sou complacente e penso que são senis, e se forem jovens é mau caráter mesmo.
Conversar, instruir, trazer luz e afastar as trevas da ignorância, por quê segundo Nelson Rodrigues[14] os idiotas vão tomar conta do mundo. Não por capacidade, mas por quantidade, afinal eles são muitos.
Sim, pedofilia não é arte.  Mas recordo também do na Musa do Impeachment, completamente nua em via pública. Trago à luz as frases que ouvi na época desse impeachment, onde homens diziam ”tiramos esse canhão e a troca só pela primeira dama já vale a pena”. Discorro sobre uma cidadã que no carnaval deste ano se coloriu com uma pintura corporal que na verdade era o desenho de nossa bandeira, e quando esta cidadã se abaixava, mostrava aquilo que o dito popular reza.
Recordo de uma apresentadora de programas infantis dos anos 80/90, sempre em trajes menores.
Esta semana, um controverso apresentador deu a uma jovem de 15 anos que foi ao seu programa de entrevistas vodca para beber. Ainda esta semana tivemos mais um caso de pedofilia em uma igreja. É um fato incontestável que o Brasil possui muito mais igrejas que museus para serem investigados e censurados.
Existem muitas crianças por ai necessitando de ajuda. Não sejam seletivos!
Recordo do sermão da Missa do Galo do último natal, na Basílica de São Pedro, onde o Papa falava das crianças que não tem brinquedos para brincar, mas armas para empunhar!
E lembrem-se: se seu filho for desobediente, arraste-o para a entrada da cidade, chame todos os cidadãos e apedreje-o até a morte! “Palavra da Salvação” em Deuteronômio 21:18-21 (e pelo amor que tens a sua mãe, não me venha com “isso é um versículo tirado do seu contexto”... todo mundo que fala isso já se valeu desse método para justificar seus preconceitos).  
Ah, quase esqueci, feliz dia das crianças.

Desterro, 12 de outubro de 2017.



[1] Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, 1475-1564, pintor, escultor, poeta e arquiteto do renascimento italiano.
[2] Michelangelo Merisi, cujo nome artístico era Caravaggio, 1571-1610, pintor italiano.
[3] Francisco José de Goya y Lucientes, 1746-1828, foi um pintor e gravador espanhol.
[4] Gustave Courbet, 1819-1877, pintor francês que se dedicou ao realismo, romantismo e academicismo.
[5] Tarsila do Amaral, 1886-1973, pintora pós-impressionista brasileira.
[6] Guillaume Geefs, 1805-1883, escultor belga.
[7] Giuseppe Sanmartino, 1720-1793, escultor italiano.
[8] Lei nº 8.069, de 13 de Julho de 1990.
[9] Latim: Faça justiça mesmo que o mundo pereça.
[10] Leandro Karnal, lançamento do Livro “Crer ou não Crer”, disponível em www.youtube.com.
[11] Idem.
[12] Grego: παις e δουλος, transliterado como pais e doulos, traduzido como criança e escravo.
[13] Evangelho Segundo São Mateus, 7.
[14] Nelson Falcão Rodrigues foi um teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Ódio - Título provisório



NB. Ainda vou revisar muitas coisas nesse texto, mas vai uma prévia para vocês!




N.S.D., 06 de setembro de 2017
Recebi hoje num daqueles grupos de “bom dia” do whatsapp um áudio do Mário Sérgio Cortella sobre o ódio. Ele relata (no áudio de 1 minuto e 57 segundos) a manifestação do ódio, tendo como o exemplo do fratricídio e o ódio que circula nas redes sociais. Cortella discorre que “o ódio corrói quem o têm, e não o alvo dele, o ódio corrói quem odeia, e não a pessoa que é odiada”. Mas, Cortella no seu “efêmero ensaio” sobre o ódio, não o definiu, então, vou me dedicar inicialmente a isso, então, de acordo com Aurélio (1971):
Ódio, s. m. Aversão a uma coisa ou pessoa; inimizade; raiva; rancor; antipatia.
Imperioso é trazer lume ao que for correlato ao assunto, como:
Odioso, adj. Digno de ódio. Detestável; repelente; s.m. aquilo que provoca ódio.
E penso que o verbo não poderia ficar de fora de minha pequena lista:
Odiar, v.t. Ter ódio a; detestar; aborrecer; sentir repugnância por; abominar.

Desta forma, já fica claro que o ódio nada mais é que um sentimento forte que nutrimos por algo ou alguém que nos aborrece, nos traz dissabores, transtornos, e até repugnamos.
Recorri ao “Dicionário de Filosofia” de Nicola Abbagnano, mas, ao que parece ele não se preocupa muito com o ódio, rancor e afins, pois não existem esses verbetes em sua obra. Como Abbagnano me deixou as escuras, recorro às Sagradas Escrituras, que abordam o tema de forma variada, como em um primeiro exemplo, na Bíblia de Jerusalém (2012), onde encontramos o Salmo 97:10:
Iahweh ama quem detesta o mal, Ele guarda a vida dos seus fiéis e da mão dos ímpios os liberta.
O Catecismo da Igreja Católica possui um bom conteúdo sobre o assunto, onde há desde as origens até a condenação ao ódio, como vemos nos seguintes parágrafos:
2262. No sermão da montanha, o Senhor lembra o preceito: “Não matarás” (Mt 5, 21) e acrescenta-lhe a proibição da ira, do ódio e da vingança. Mais ainda: Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face, que ame os seus inimigos. Ele próprio não Se defendeu e disse a Pedro que deixasse a espada na bainha (Catecismo, 2011).
Quanto suas origens encontramos uma explanação de Santo Agostinho onde a base do ódio é a inveja, como podemos observa no seguinte parágrafo do mesmo catecismo:
2539. A inveja é um vício capital. Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente. Se desejar ao próximo um mal grave, é pecado mortal: Santo Agostinho via na inveja “o pecado diabólico por excelência”. “Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pelo mal do próximo e o desgosto causado pela sua prosperidade” (Catecismo, 2011).
Já vimos que o ódio pode ser bom, como descrito no Salmo 97. Contudo existem outras passagens das Escrituras, uma que se destaca é uma passagem na tradução do Novo Testamente da Bíblia ARA – Almeida Revisada e Atualizada –  (2012) como esta de São Mateus 5:22:
Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento(...).
Por outro lado, São João em 1 S. João 2:9-11 nos traz que “aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas” (Almeida, 2012), contudo a questão aqui não é o ódio “gratuito”, pois penso que ele nunca é, mas sim o que encontra-se em Mateus 20:4, “e aquilo que for justo, eu vo-lo darei”.
Penso que o ódio esteja ligado à justiça, ou ao seu “alter ego” que não goza de tantas honras, esse alter ego que chamamos de vingança, que pode ser também uma “forma” de justiça, contudo vetada pelo pacto social e por lei.  Você nute algum sentimento ruim por algo, pois entende que aquilo está errado.
Há um costume terrível entre os brasileiros, pois, os que exigem seus direitos, que exigem o mero cumprimento da lei são taxados como chatos, barraquentos, bringuentos, fomentadores de rolos e discórdias. Você é mal visto só por querer o certo e o legal! (sem contar que há quem diga que você interpreta a lei da forma que lhe convém... bem lamento informar, para isso há jurisprudência).
Um sujeito não pode dizer que o meu “ódio” por algo, alguém ou situação é ruim, desnecessário como também ele não pode vir com o discursinho que “isso vai ter fazer mal”, quando ele mesmo nutre um ódio profundo e diz que o ex-presidente Luiz Inácio é um traidor que “deveria ser enforcado em praça pública”.
Todo o livro tem uma carga de ódio, o ser humano é assim, como podemos notar no Alcorão, Sura da Vaca – 02, versículo 191 onde os infiéis devem ser mortos. Na Bíblia, temos a passagem de 2 Reis 2:23-24 onde Eliseu praguejou para que duas ursas matassem 42 crianças. A Torá também não escapa em diversas passagens, até do Gênesis, onde Deus nos expulsou do Jardim (Gn. 3:1-24), destruir a terra no dilúvio (Gn. 5), a destruição de Sodoma (Gn.19:5-16), e não, Sodoma não foi destruída por Sodomia, pesquise!
Alguém pode querer dizer que eu estou pinçando versículos e os retirando do seu contexto, bem, muitos condenam a homossexualidade com Levítico 18:22, 1 Coríntios 6:18, 1 Coríntios 6:9-11 e outras, sempre pinçadas, sempre fora do contexto, sobretudo histórico. Em tais momentos me recordo de como essas passagens são discutíveis e lembro ainda mais, como o relato de cura do “servo” do centurião de Cafarnaum (Mateus 8:5-13 e Lucas. 7:1-10), ou o Novo Mandamento (João 13:34) que fez muita coisa cair por terra. Recordo que Paulo tinha “um certo espinho na carne” dado por um servo de Lúcifer para que ele não se encha de soberba (2 Coríntios 12:7), ou ainda quando Cristo disse que não trouxe a paz e sim a espada (Mateus 10:34).  
Enfim, cada um escolhe o que amar e odiar! O problema é quando o seu ódio contra qualquer um é válido, o meu não.  
Por vezes olhar para si e perceber a "caganifância" que se é, é até bom.


Bibliografia
Bíblia de Jerusalém, Ed. Paulus, São Paulo, 2012;
Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, São Paulo, 2011;
Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 10ª edição, Rio, 1971;
Nobre Alcorão, impresso no complexo do Rei Fahd para impressão do Nobre Alcorão,  Arábia Saudita, (1426 Hégira) 2005;
Novo Testamento, Almeida Revista e Atualizada, Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri, 2012;

Torá – A Lei de Moisés – Ed. Sêfer, São Paulo, 2011.