domingo, 17 de dezembro de 2017

L'amico è

N.S.D., 17 de dezembro de 2017.

O sol brilha impiedosamente, trinta graus na velha Desterro, ouço Stradella[1] enquanto congemino sobre a felicidade. Em especial a dos outros. Reza um dito popular que “torço pela felicidade dos outros, pois, gente feliz não enche o saco”. Verdade verdadeira como dizem os antigos. Hoje as redes sociais “denunciam” um pouco dos nossos movimentos, afinal, damos toda a informação gratuitamente. Me pergunto se a Gestapo tinha tantos dados, mas os damos para ser cools e bem aceitos pelos amigos, devemos então mostrar que somos felizes a todo pano.

Enfim, é nessa onda “tsunamesca” de profunda (e “autêntica”) felicidade que que traz aqui hoje nesse escaldante dia.

Parece piada, mas o youtube na tv começou a tocar o Ingemisco, de Verdi[2], leia o texto no rodapé[3]. Aproveitando o gancho, ingemisco tamquam reus, tento não atribuir algo de ruim a pessoas que se afastam dos amigos por estarem felizes, muito embora há um culpa rubet vultus ali. Essas redes sociais e a estranha necessidade de estar sempre chapado de ansiolíticos e antidepressivos, e a tola necessidade de mostrar sempre feliz diz muito sobre o vazio que as pessoas vivem.

Não creio que esse vazio e outras coisas muito sérias como depressão sejam falta de Deus, falta de ocupação, ou excesso de frescura. Mas, são doenças graves, mesmo assim, alguns teimam em aproveitar seu momento feliz com vários amigos, e quando algo dá errado, quando o namoro acaba, ou a fluoxetina não faz mais efeito e todos vão direto para o fundo do poço abraçar a Samara, ai se lembram de mim, querem conversar, querem ajuda, querem serem ouvidos sem julgamentos e reservas, compreendidos plenamente, esfericamente em todas as direções. Por que não querem compartilhar a felicidade deles comigo? Ao que parece alguns gostam de fazer os outros de muletas.

Recordo, em especial de um dia que disse para um amigo que eu estava feliz, bestamente apaixonado, e tive que ouvir um “eu não quero saber disso!”. Ok. As pessoas podem esfregar a felicidade delas na minha cara e na de tantos via facebook, instagram, onde elas como atores e atrizes de quinta fingem serem felizes. Quando eles tem felicidade, não compartilham um bom momento, nem a mesa, em um abraço ou sorriso. Se eu estou feliz e quero falar disso, sou rechaçado. E quando eles estão deprimidos, sozinhos e esquecidos, ai eu tenho que aturar. Meus ouvidos, para alguns são latrinas. 

Esses amigos estranhos, são tão quão réus, culpados de seu profundo egoísmo sádico que só me reservam o seu pior lado.

Há também aquele que espera um momento ruim seu para alfinetar, te por mais para baixo. Fico pensando, que tipo de gente cospe para cima? Se há mesmo a afamada “lei do retorno”, peço ao universo paciência, saúde, um balde de pipoca e um par de óculos escuros.

O que me compele a ajudar algum ególotra amigo que me procura em seus dias ruins? Caridade cristã? Amor ao próximo? Bem eu acredito que primeiramente esse próximo sou eu mesmo, depois os outros. O amor ao próximo começa com o amor próprio, e ele me faz estranhamente lúcido quanto a essas questiúnculas.

Não sou obrigado a nada.





[1] Alessandro Stradella, 1639-82, compositor barroco italiano, a obra em questão é Pietà Signore, erroneamente atribuída Louis Niedermeyer, comp. Suíço do século XIX. Partitura na Biblioteca do Congresso Americano: https://www.loc.gov/resource/sm1883.24142.0/?sp=2&q=Alessandro+Stradella%2F
[2] Giuseppe (Fortunino Francesco) Verdi, 1813 – 1901, compositor italiano, conhecido por suas óperas, La Traviatta, Il Trovatore e outras.
[3] Gemo, tal qual um réu, minha culpa enrubesce-me o semblante, poupa a quem está suplicando, ó Deus! (Tu) que perdoaste a Maria (Madalena), e ouviste atento ao ladrão, também a mim deste esperança. Minhas preces não são dignas, mas, tu (és) bom, age com bondade, para que eu não seja queimado pelo fogo eterno. Entre as ovelhas dispõe um abrigo, retira-me para longe dos bodes, coloca-me de pé à Vossa direita.

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