quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Disparidade no Carnaval - O Cultural e o Povão

Há alguns dias recebi um convite do qual eu não poderia sob hipótese alguma declinar, integrar juntamente com virtuosíssimos músicos a “Orchestra Philarmônica Destherrense”. Creio que a Philarmônica é única, devido a uma filigrana muito própria: a arte de tal orquestra é desafinar, sempre! E quanto mais, melhor! Há algumas questões históricas que devo relatar aqui, nos idos anos de 1950, o governo proibiu a população de vestir-se de mulher, em especial de mulher grávida, pois era algo muito indecoroso para os padrões da época. Devo também salientar que o carnaval de rua sempre satirizou e trouxe a baila questões e problemas de seu tempo, como podemos constatar nas ruas com o grande número de pessoas fantasiadas como a cantora britânica Amy Winehouse, falecida em julho p. p.. Também podemos ver nas ruas de carnaval personagens de destaque no Brasil, tinha até Dilma Rousseff com a faixa presidencial desfilando pelas ruas. Como o governo baixou a proibição do uso de trajes femininos, um grupo de amigos resolveu munir-se de alguns acessórios não muito usuais no carnaval, tais como, casaca, gravata borboleta e por vezes uma lustrosa cartola.

Os amigos reunidos e dignamente trajados valeram-se de alguns instrumentos comuns das grandes orquestras e saíram pelas ruas da capital tocando fervorosamente. Um pequeno detalhe, que na verdade é fundamental aqui: o músico para ser aceito deve saber desafinar como ninguém! Assim, por tradição e fraternidade esse protesto histórico se perpetua na capital catarinense há mais de meio século. Outro hábito muito difundido à época era o tradicional bigode, era algo austero... coisas dos anos dos acordos do "fio de bigode”.

Mas, por hora basta das histórias transcorridas há mais de cinqüenta anos, vou relatar o presente. Compareci ao clube – sim, carnaval de clube, muitos não devem saber o que é isso, mas já fui a alguns – com o instrumento escolhido, terno preto e gravata borboleta. Lá houve uma confraternização entre os músicos. Nada de música estranha. Na frente de onde estávamos, transcorria o baile infantil com as tradicionais marchinhas. No churrasquinho só um bom papo de alto nível com pessoas realmente excepcionais. Isso tudo me incute na mente uma reflexão que poucos devem fazer no período do carnaval: a qualidade dos festejos.

Um carnaval de clube e com um bloco como a Philarmônica, é algo muito diferente do que estamos habituados a ver nas ruas nos tempos de folia. Hoje vemos somente uma verdadeira falta de educação, pessoas quem usam as vias como urinóis fossem; as pessoas andam seminuas, completamente embriagadas, entorpecidas, foras da casinha mesmo. E chamam isso de festa. Não houve uma inversão de valores, mas sim uma subtração destes. Hoje só há tempo para orgias alcoólicas – e não só estas – e é claro, sangue. Se um infeliz destes fosse sozinho para os braços do velho deus Tanatos, seria um favor para a humanidade.

Hoje a população passa por um processo de estupidificação, e isso vem de longa data. Estúpidos latu sensu mesmo, só é bom o rapaz que “passa o rodo”, bebe todas e pega o carro, como o infeliz de 18 anos que atropelou 17 pessoas no carnaval em Bal. Quintão, RS. Já quanto às garotas de “família”, bem, um neologismo: “piriguete”, valores morais que é o bom, nada, algumas já são ''mães; e ambos na balada escutam Michel Teló. Não posso concordar com o artista plástico Veronese que diz que o povo consome o que lhe é oferecido. As bibliotecas estão abarrotadas com as obras de Victor Hugo, Alexandre Dumas, Julio Verne, Machado de Assis, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Manuel Bandeira. No campo musical, bem, quem não tem um computador para acessar hoje uma rede social como o facebook... (para não dizer do fuckbook, sim, descobri isso essa semana e ao que parece, essa porcaria é obra de um brasileiro). O povo consome o que quer, eis a verdade, nua e crua.

N.S.D., 22 de fevereiro de 2012.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cor Privata Spe

Tempos estranhos, complicados. Tempos em que temos verdadeiros regimes ditatoriais, afinal “ditadura é quando você manda em mim, e democracia é quando eu mando em você”. Quem tem uma generalíssima em casa que se vire.

Mas não é sobre tal causo que quero discorrer hoje, mas sim sobre algumas noites tomadas por densas trevas que insistem em não se dissipar... há quem espere a vinda do astro rei para trazer algumas coisas de volta, a luz o astro o vivificará. Mas, as noites podem ser eternas, a saudade fere como a lança de Longinus o cor privata spe. Cada um é o artífice do seu destino, sorte e por extensão a felicidade.

Hoje negligenciam-se as coisas do céu em nome das coisas terrenas. Tolos, sic transit gloria mundi, S. Terezinha afinou uma vez: “a vida é um breve instante entre duas eternidades”. Mas, creio que a eternidade posterior está atrelada ao efêmero momento terreno. Tão límpido, mas alguns ainda não compreenderam “tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu (Mt. 18:18).”

Há sempre um masoquista, afinal, aprecia muito dos grilhões da ignorância. A humanidade, de uma certa forma, está assim, ainda na caverna mítica, caminhando no reino de sombra e de caos, onde a noite faz as vezes de claridade (Jó 10:22).

E o ouro de tolo? Nem tudo que reluz é ouro.

Coma excrementos, se desejar, mas por obséquio, não tente eructar diamantes aos quatro ventos!

N.S.D., 20 de fevereiro de 2012.