quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O Homem Nu

Segunda-feira, dia 9, pela primeira vez alguém comentou que eu tenho defendido nas redes sociais a livre manifestação da arte em museus. É verdade, e permitam-me uma brincadeira, é uma verdade pura, crua e... nua.
Estranhei inclusive, pois demorou para que alguém notasse essas postagens e ideias, mas enfim, notaram, e recebi um comentário em uma conversa com um velho amigo que apenas comunicava que tinha lido tais ideias, logo não houve ataques e adjetivações, houve na verdade uma boa maturidade, esta que falta em tantas discussões hoje.
Mas eu perco as estribeiras? Claro! Sou um ser humano, nasci sobre a pecha da carne, e perco a paciência como qualquer um, perco a paciência em especial com quem não dispõe um pouco de tempo e boa vontade para discorrer sobre a tese, a antítese e a síntese. Vejo apenas opiniões já formadas por desconhecidos, onde alguém vê e compartilha a opinião de um terceiro desconhecido que é tido por muitas vezes como “formador de opinião”.
A arte é para escandalizar, provocar, contrariar... e fazer pensar. Eis a nudez do homem, nu, despido, desprovido de intelecto.  Se a tal mostra do MAM foi ou é arte, não sei, não sou crítico de arte. Alguns a consideram outros não, mas penso que muitos se escandalizaram no século XVI com Michelangelo[1] ao esculpir o seu Davi, ou com toda aquela nudez da Capela Sistina, ou com Caravaggio[2] na transição dos séculos XVI e XVII ao utilizar seus namorados como modelos para retratar santos em poses incomuns.  
Poderia citar mais, como a La Maja Desnuda (e depois vestida) de Goya[3], A Origem do Mundo, por Gustave Courbet[4] extremamente icônico ao retratar um nu frontal, uma vagina em close, o Abapuru de Tarsila[5] ou Lúcifer seminu e sedutor, sobre uma rocha como se pode perceber na obra Le Génie du Mal, esculpida por Geefs[6] para a Catedral de São Paulo, na cidade de Liège, Bélgica. Poderia citar o Cristo Velato de Sanmartino[7] (de longe a mais bela dessas obras). Curiosamente sempre encontramos um Cristo com poucas vestes nessas obras.  
A questão aqui não é a nudez! E sim uma imprudência dos responsáveis pela menina que a levaram naquele museu, pelo simples fato que crianças devem ser resguardadas desse e de outros tipos de abuso. Sou eu quem diz? Absolutamente, e sim o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA[8]) que veta esse tipo de exposição, de violência, risco, nudez. É lei, cumpra-se, e cumprir a lei é fazer justiça, e como reza um velho brocardo fiat justitia, pereat mundus[9]!
Seria aquela nudez a primeira que esta criança teria visto? Duvido muito. Essa criança deve ser exposta a essa nudez? Não, uma vez que ela não tem discernimento para o certo e o errado (como tantos adultos), a nudez vista furtivamente (e indevidamente) de seus pais em casa ao ir ao banho, será para uma criança diferente de uma nudez de um abusador? Eis aqui um enfático e sonoro não. Por isso todo esse cuidado.
Existe alguma diferença entre uma criança branca, de classe média, de família que segue os bons costumes, família esta que é defensora da moral, das virtudes, enfim uma família cristã e uma criança pobre, negra, morando em um barracão em uma favela, que por muitas vezes não possui nem o básico para viver com dignidade?
Recentemente encontrei alguns registros fotográficos, um deles é um corpo de uma mulher que fora assassinada, um corpo caído no chão, numa viela de favela, coberto por um lençol velho dado por um vizinho mais piedoso, e essa cena era assistida por várias crianças. Lembro também de outro registro, o de várias crianças se amontoando em um dos respiros de ar quente do metrô de São Paulo para se aquecerem em um inverno rigoroso. Candelária, alguém lembra? Crianças famélicas no tempo de um  governo federal dos anos 90, alguém se importa?
Por que uma criança merece ser protegida em uma redoma e a outra deve viver como um animal?
Vejo por ai, postagens em redes socais de um projetil, como o de um fuzil, e junto a imagem da bala há uma inscrição “chip para curar bandido”. Vale lembrar que o filho dos outros é sempre um bandido que deve ser morto, mas e se for o seu filho? Queria ver você dizer que ele não é mais seu filho, que ele agora é um delinquente, um bandido que merece morrer. Queria mesmo ver você ser forte e coerente o suficiente para puxar o gatilho enquanto você empunha a arma na cabeça do seu filho.
Esse é o tipo de pessoa de bem, de valores, classe média, cis, hétero, caucasiana e cristã que temos por ai, é essa pessoa que diz que “bandido bom é bandido morto”, e depois comemora a Páscoa de Cristo.
E falando em símbolos religiosos, que tal defender primeiro os terreiros que são atacados aos montes por ai, destruídos, vandalizados, queimados! E me alegro em dizer que não é o ISIS que faz isso (e não ponham palavras na minha boca, pois nem todo o mulçumano é terrorista). O ISIS não necessita fazer terrorismo no Brasil, por motivos óbvios. Afinal, temos até fiscal de c* alheio por aqui.
O que as pessoas não entendem é que ”Jesus tem pavor de gente de bem, Jesus detesta os fariseus (hipócritas), Ele tinha raiva dessas pessoas que fazem jejum, yom kippur e jogam cinza na cabeça, Ele tinha raiva do rico que dava esmola”[10], Ele tinha horror a defensores da moral e dos bons costumes. Cristo gostava dos excluídos, dos pobres, das prostitutas, dos samaritanos, hoje procuraria transexuais[11].
É excruciante dialogar com pessoas que não aceitam uma ideia diferente, que travestem seus preconceitos com a roupagem da opinião e do direito de manifestação “intelectual”. Poderia escrever aqui sobre as palavras παις e δουλος[12] que aparecem na Septuaginta, e em especial em São Mateus 8 e São Lucas 7, onde é possível que o Centurião de Cafarnaum não fosse ter com Jesus para curar seu escravo ou mesmo um filho. Então quem era? Explanar sobre isso hoje é a mesma coisa com a qual Cristo nos alertava quando disse para não jogar pérolas aos porcos[13]. Mas mesmo assim é imperioso explicar coisas mais urgentes que grego antigo na Septuaginta, é necessário combater o flagelo da ignorância, é necessário conversar e muito com essa gente que primeiro observo a idade, se for velha, sou complacente e penso que são senis, e se forem jovens é mau caráter mesmo.
Conversar, instruir, trazer luz e afastar as trevas da ignorância, por quê segundo Nelson Rodrigues[14] os idiotas vão tomar conta do mundo. Não por capacidade, mas por quantidade, afinal eles são muitos.
Sim, pedofilia não é arte.  Mas recordo também do na Musa do Impeachment, completamente nua em via pública. Trago à luz as frases que ouvi na época desse impeachment, onde homens diziam ”tiramos esse canhão e a troca só pela primeira dama já vale a pena”. Discorro sobre uma cidadã que no carnaval deste ano se coloriu com uma pintura corporal que na verdade era o desenho de nossa bandeira, e quando esta cidadã se abaixava, mostrava aquilo que o dito popular reza.
Recordo de uma apresentadora de programas infantis dos anos 80/90, sempre em trajes menores.
Esta semana, um controverso apresentador deu a uma jovem de 15 anos que foi ao seu programa de entrevistas vodca para beber. Ainda esta semana tivemos mais um caso de pedofilia em uma igreja. É um fato incontestável que o Brasil possui muito mais igrejas que museus para serem investigados e censurados.
Existem muitas crianças por ai necessitando de ajuda. Não sejam seletivos!
Recordo do sermão da Missa do Galo do último natal, na Basílica de São Pedro, onde o Papa falava das crianças que não tem brinquedos para brincar, mas armas para empunhar!
E lembrem-se: se seu filho for desobediente, arraste-o para a entrada da cidade, chame todos os cidadãos e apedreje-o até a morte! “Palavra da Salvação” em Deuteronômio 21:18-21 (e pelo amor que tens a sua mãe, não me venha com “isso é um versículo tirado do seu contexto”... todo mundo que fala isso já se valeu desse método para justificar seus preconceitos).  
Ah, quase esqueci, feliz dia das crianças.

Desterro, 12 de outubro de 2017.



[1] Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, 1475-1564, pintor, escultor, poeta e arquiteto do renascimento italiano.
[2] Michelangelo Merisi, cujo nome artístico era Caravaggio, 1571-1610, pintor italiano.
[3] Francisco José de Goya y Lucientes, 1746-1828, foi um pintor e gravador espanhol.
[4] Gustave Courbet, 1819-1877, pintor francês que se dedicou ao realismo, romantismo e academicismo.
[5] Tarsila do Amaral, 1886-1973, pintora pós-impressionista brasileira.
[6] Guillaume Geefs, 1805-1883, escultor belga.
[7] Giuseppe Sanmartino, 1720-1793, escultor italiano.
[8] Lei nº 8.069, de 13 de Julho de 1990.
[9] Latim: Faça justiça mesmo que o mundo pereça.
[10] Leandro Karnal, lançamento do Livro “Crer ou não Crer”, disponível em www.youtube.com.
[11] Idem.
[12] Grego: παις e δουλος, transliterado como pais e doulos, traduzido como criança e escravo.
[13] Evangelho Segundo São Mateus, 7.
[14] Nelson Falcão Rodrigues foi um teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro.

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