N. S. D., 3 de Julho de 2019.
Adão e Eva segundo o relato do primeiro
livro de Moisés sofreram dentre tantas mazelas o desterro cruel por conta da tache originelle, afinal, comeram do
fruto proibido.
Segundo Melanie Klein [1] aquele que come
do fruto do conhecimento é inevitavelmente expulso de algum paraíso, e eu comi
deste fruto e acabei por aniquilar a terna ilusão construída em minha mente. O
meu desterro é no mundo real. Esta ilusão em minha mente insana era o que para
muitos é um fato, simples e corriqueiro, mas para mim é um vislumbre, e ao que
parece inatingível: amar e ser amado.
Conheço bem cada tétrica nota desse velho
e gasto estribilho como a ária de Dido [3] e seu profundo lamento ante a pira,
tragédia esta que afetuosamente chamo de "a minha inexistente vida
amorosa". Bem, até amor-próprio me falta. Os meus poucos amores reais
estão se indo, minha mãe se foi...
Não me recordo de um acerto sequer, por
isso concordo com Aznavour [2] que cantava "car mes amours sont mortes avant que d'exister".
Certa vez li em algum lugar que coleções
de objetos são pequenas compensações que fazemos em nossas vidas. Bem, se isso
for verdade e eu pensar por cada erro meu no campo de amor isso justificaria as
coleções de relógios à corda, moedas, cédulas, militaria, alguns poucos selos,
livros antigos, porcelana, discos (vinis de 33, 45 rpm e 78 rpm para o
gramofone), penas para tinteiro, imagens de santos (uma que tive eram santinhos
de papel)... enfim, até hoje nunca acertei.
Dentre minhas características penso que
uma das mais marcantes é a existência de uma personagem, que aparece
recorrentemente: o padre. Esse padre é sempre um bom e silencioso ouvinte,
silêncio este que somente é quebrado por pequenos conselhos. Dito isso, escutei
pacientemente na última sexta-feira p.p. o a relato auricular de Eva,
confessando que ainda se contorcia por Adão, mesmo estando hoje com João.
Mesmo que não de forma plena, João é
presente, Adão é passado (ou nem tanto) e nem conjectura sou. Nem uma delirante
e febril hipótese na ilha de lost, ou nesta Ervilhanópolis.
Quem sabe, numa vida vindoura.
O tolo aqui gosta de Eva. Eva gosta de
Adão, e Adão não se importa minimamente com Eva. Assim de forma nua, crua e
banal a nossa totentanz segue sua macabra
ciranda, onde ninguém é feliz e todos caminham para o fim.
Sozinhos viemos. Sozinho vamos. Foda-se o
meio (até eu me apaixonar feito tapirus
terrestris mais uma vez).
[1] Melanie Klein, pisicanalista
austríaca, (1882-1960);
[2] Charles Aznavour, cantor francês
(1924-2018);
[3] Dido's
lament, de Dido et Æneias (Z. 626) de Henry Purcell (1659-1695);

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