sábado, 26 de outubro de 2019

O Pecado Original


N. S. D., 3 de Julho de 2019.
Adão e Eva segundo o relato do primeiro livro de Moisés sofreram dentre tantas mazelas o desterro cruel por conta da tache originelle, afinal, comeram do fruto proibido.

Segundo Melanie Klein [1] aquele que come do fruto do conhecimento é inevitavelmente expulso de algum paraíso, e eu comi deste fruto e acabei por aniquilar a terna ilusão construída em minha mente. O meu desterro é no mundo real. Esta ilusão em minha mente insana era o que para muitos é um fato, simples e corriqueiro, mas para mim é um vislumbre, e ao que parece inatingível: amar e ser amado.

Conheço bem cada tétrica nota desse velho e gasto estribilho como a ária de Dido [3] e seu profundo lamento ante a pira, tragédia esta que afetuosamente chamo de "a minha inexistente vida amorosa". Bem, até amor-próprio me falta. Os meus poucos amores reais estão se indo, minha mãe se foi...

Não me recordo de um acerto sequer, por isso concordo com Aznavour [2] que cantava "car mes amours sont mortes avant que d'exister".

Certa vez li em algum lugar que coleções de objetos são pequenas compensações que fazemos em nossas vidas. Bem, se isso for verdade e eu pensar por cada erro meu no campo de amor isso justificaria as coleções de relógios à corda, moedas, cédulas, militaria, alguns poucos selos, livros antigos, porcelana, discos (vinis de 33, 45 rpm e 78 rpm para o gramofone), penas para tinteiro, imagens de santos (uma que tive eram santinhos de papel)... enfim, até hoje nunca acertei.

Dentre minhas características penso que uma das mais marcantes é a existência de uma personagem, que aparece recorrentemente: o padre. Esse padre é sempre um bom e silencioso ouvinte, silêncio este que somente é quebrado por pequenos conselhos. Dito isso, escutei pacientemente na última sexta-feira p.p. o a relato auricular de Eva, confessando que ainda se contorcia por Adão, mesmo estando hoje com João.

Mesmo que não de forma plena, João é presente, Adão é passado (ou nem tanto) e nem conjectura sou. Nem uma delirante e febril hipótese na ilha de lost, ou nesta Ervilhanópolis. Quem sabe, numa vida vindoura.

O tolo aqui gosta de Eva. Eva gosta de Adão, e Adão não se importa minimamente com Eva. Assim de forma nua, crua e banal a nossa totentanz segue sua macabra ciranda, onde ninguém é feliz e todos caminham para o fim.

Sozinhos viemos. Sozinho vamos. Foda-se o meio (até eu me apaixonar feito tapirus terrestris mais uma vez).

[1] Melanie Klein, pisicanalista austríaca, (1882-1960);
[2] Charles Aznavour, cantor francês (1924-2018);
[3] Dido's lament, de Dido et Æneias (Z. 626) de Henry Purcell (1659-1695);

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