quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dois Corações

     Desterro, 20 de junho de 2024.

    Abaixo algumas ideias avulsas, já que ainda não terminei de escrever. Alguma coisa pode estar sem sentido ou fora dele, mas aos pouco vou arrumando, contudo gostaria de compartilhar com vocês esse texto que ganhou o nome de um velho dobrado. 


    Namorar alguém que não estamos apaixonados. É necessário, uma vez que o amor é algo que se cultiva, nasce, cresce e floresce. Por outro lado, a paixão é algo que logo perece, acaba tal qual fogo de palha. 

    Com a paixão, acabamos por conversar tudo de uma só vez, como se estivéssemos sedentos por aquilo, como se não houvesse amanhã. Queremos o outro tal qual o entorpecido busca o torpor oferecido pela droga, é isso que a paixão nos faz: nos torna dependentes quimicamente, psicologicamente, e nos torna também burros, tolos, vulneráveis, irracionais, causando uma verdadeira confusão em nosso cérebro, corpo e vida. Por outro lado, o amor, é lentamente construído, cultivado com a pessoa que hoje é desconhecida, vamos conversando pouco a pouco, conhecendo lentamente, vivendo cada pequeno instante, onde tudo é construído: o amor, a cumplicidade, s sonhos, donde vamos fazendo sempre novas descobertas, gostos em comum, limitações... Nada disso há na paixão, que como já sabemos é sempre fogo de palha, e como tal não dura absolutamente nada. 

    Quando observamos os casamentos de antigamente, claro que havia alguns problemas, e inclusive graves diria eu, como a esposa não poder divorciar-se porque além de durante muitos anos a lei do divórcio não existia, ela própria não tinha uma renda, autonomia para sustentar-se. Isso além de toda a pecha que a própria sociedade iria imputar nesta situação. A ideia aqui não é romantizar abusos. 

    Mas nesses casamentos arranjados a coisa tinha por hábito de durar mais, pois não era alicerçado nas inconstâncias da paixão que tanto nos causam mazelas até hoje. Nesses arranjos as pessoas tinham que se conhecer lentamente no meio da relação, nos chamados "namoros de sofá", havia um certo "medo" (ou seria respeito?), e com o tempo um ia conhecendo o outro, lentamente.

    Hoje nesses processos céleres de tinder e outros tantos, todos afins, há uma grande dose de imediatismo, pois num tinder da vida, a maioria das vezes as pessoas não querem conversar, não querem se conhecer, muitas vezes nem sair, ou mesmo apenas sexo. Elas querem apenas e tão somente o "like". Hoje as pessoas se encantam apenas com o físico e não conseguem ver como alguém pode ser bom para ela: é o tal amigo, só isso. "Te amo como um amigo, como um irmão", eis a tão temida "friendzone". Mas essa pessoa quer sempre tratamento vip, com carinho, amor, compreensão, dignidade, companheirismo, quando muito se encanta apenas com o que vê fisicamente no outro, pouco importando trato ou gostos em comum.

    Um relacionamento para ser longo e estável que ser construído lentamente, no dia-a-dia, e não todo de uma única vez, nu curtíssimo espaço de tempo, como aconteceu na história de Romeu e Julieta. Ali obviamente não é uma história de amor, e sim as possíveis consequências de dois idiotas apaixonados um pelo outro. É muita estupidez achar que aquilo é amor. Amor é um casamento antigo, arranjado, e que com o tempo se aprende a amar, e no final da vida um não vive mais sem o outro, muitas vezes literalmente um "vai" atrás do outro para o além. 

    Temos que deixar de ser tão imediatistas, especialmente os gays que sempre viveram às margens da sociedade e hoje com alguma liberdade vivem uma vida vazia, líquida, fútil, não percebendo que mesmo que aproveitem a beleza fugaz da juventude, um dia que não tardará, essa beleza irremediavelmente irá acabar. E desta forma pergunto: e o que sobrou? Uma "larga" experiência em dar o cu?

    Tudo é tão efêmero, e as pessoas ainda "contribuem" para isso sendo mais fúteis. É uma triste realidade. 

    Eu encontrei no FB uma página católica intitulada "Catolicismo Posting", e nesta página há uma postagem de um tal André Costa (@andretcosta) dizendo: "Ninguém casa por amor, casamos para aprender a amar! Românticos precisam superar o "amor acabou" como justificativa viável par terminar um casamento. É no velório da paixão que o amor nasce!"

    Outro ponto que deve ser elucidado aqui é o fato que poucos se atentam: nós não somos descartáveis! Mas somos assim tratados, e pior, tratamos o outros assim. Tudo bem que em vários casos a situação torna-se insustentável, desta forma fica insuportável um remendo efetivo na relação, contudo, para a grande maioria das pessoas é mais fácil troar o parceiro do que tentar algo novo com o mesmo parceiro. Fico reparando nos gays e em como eles agem diante dos problemas. Sei também que boa parte de uma geração foi tomada pelo "bum" do HIV, e assim perdemos uma referência de toda uma geração, perdemos a referência de como poderíamos ver essa geração anterior em relacionamentos estáveis e saudáveis. Tudo bem que cada um é livre para viver um relacionamento como bem entender (ainda bem né), seja não-monogâmico, poli-amor, relacionamento fechado, etc. Cada um faz o que quiser, e se isso for bom para ambos.

    Mas o foco aqui são os relacionamentos onde as pessoas não se apaixonam antes... Voltando, então eu fico pensando no torpor que sentimos quando estamos apaixonados Há toda uma confusão no cérebro, e é claro que isso é uma desordem que gera toda uma gama de sintomas, entre eles: euforia, aumento de energia, insônia, perda de apetite, ou algum outro distúrbio alimentar. Mudanças de humor são sentidas e isso tudo é comparável a um quadro de dependência química. 

    Segundo um estudo publicado no Journal of Psychophysiology os apaixonados passam 65% do tempo em que estão acordados pensando no ser "amado". Tudo isso altera drasticamente os nossos níveis de serotonina, e isso leva algum tempo a voltar ao normal. 

    Depois a oxitocina vai voltando, e é ela que é associada a uma forma de amor mais calma e madura.

    Tudo isso e essa reflexão toda encontra base além das minhas dinâmicas e ausência de relacionamentos na minha vida. 

    Esses dias encontrei no Instagram um estudante de psicologia (sua conta é @caiopimentelpsi) e ele diz: 

"É possível um relacionamento com alguém que você não é apaixonado dar certo?

    Eu acho que tem bem mais chances de dar certo do que um relacionamento passional. Exato! Um relacionamento que começa com pensamento crítico, com racionalidade e ponderação, tem muito mais chances de dar certo do que um relacionamento baseado em paixão. 

    Você vai começar um relacionamento com alguém que você não gosta?

    Não existe só não gostar de paixão, criatura! Tem uns oitenta tons de cinza nessa paleta, você fica com alguém às vezes, o date nem sempre é tão bom, aí vocês conversam, veem que tem as afinidades, que pensam da mesma maneira sobre um monte de coisas. Fazem o segundo date um pouco melhor, conversam sobre objetivos em comum, e assim as coisas vão se construindo com base em respeito, tempo e paciência. 

    Mas isso parece chato pra caralho pra mim!

    Claro! Porque o referencial de relacionamento que a gente tem hoje é: fui pro Vila Mix, ou pro baile, ele foi uma das oito bocas que eu beijei naquela noite. Fui para a casa dele, fiquei lá um final de semana inteiro a pau e água e agora a gente vai ter um namoro feliz e saudável sendo que a gente nem sabe o nome um do outro!

    Ah, mas não precisa ser assim também!

    Você gosta de oito ou oitenta e gosta da paixão, eu gosto da raiva, nem por isso eu agrido os outros na rua.

    Tá! Qual é o seu ponto?

    A gente sente sentimentos, mas a gente não se guia por eles, eles são passageiros, não são os maquinistas.

    E como você faz para ão se apaixonar?

    Não me apaixonar? Quem disse que eu não me apaixono? Eu me apaixono três vezes na semana; semana passada foi com a Gal Gadot e Alessandra Negrini.

    Ué? Como assim?

    Eu simplesmente não me guio por isso, eu tenho os planos que eu fiz em momentos de sobriedade, eu não vou abandonar eles por que eu tô apaixonado. Paixão é química e química passa, e passa rápido. 

Ah! Não é possível que você segue essas coisas! 

    Olha, se você quer questionar como eu vivo para poder baixar a régua da sua disciplina eu tô plenamente confortável. Não vai ser nem a primeira, nem a última vez que fazem isso. Quem vive pela espada morre pela espada e quem vive pela paixão, bom, você sabe."

    

    É isso que esse estudante de psicologia chamado Caio disse, mas a questão é como colocar isso em prática. Romantizou-se essa paixão como sinônimo de amor e todos nós hoje passamos esse trabalho. Gostaria muito de algo assim, simples e racional. Ou só um relacionamento. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário