quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ecce Sacerdos

Fico me perguntando por que as pessoas me falam tantas coisas, na verdade, por que elas me “confessam” tanto. Terei eu cara de padre? Hoje mesmo, na escadaria do coro da catedral, do qual faço parte uma coralista perguntou-me: “já estais quase padre?” Donde raios ela tirou isso? Em outro momento outra coralista, já falecida pôs a mão em meu ombro e disse o seguinte: “Será que tu não serás um sacerdote?” Respondi que não sabia ao certo a resposta àquela pergunta. E ela retrucou: “Pergunte à sua Mãe Maria, ela lhe saberá responder.” Bem, o fato de ser filho único esta idéia não agradou de forma alguma a meu pai. Resumo do libretto: estou em uma faculdade de direito e o mundo não é perfeito. Modéstia às favas, eu seria um bom padre, porém o mais doido e polêmico de todos eles, a ponto de deixar o arcebispo de cabelos brancos.
As pessoas me procuram para contar suas histórias, chorar suas mazelas, confessar seus “pecados” a mim que já ouvi cada "coisa do arco da velha" como diria a minha avó. Meu MSN tornou-se um confessionário de casos cabeludos, um mais que o outro. E nesses casos há de tudo um poço, como por exemplo: problemas econômicos, casamentos que afundam, namoros que uma das partes não sabe o quer, abortos, ciúmes, doenças, brigas, enfim tantos tipos de angústias que é bom não pensar muito, pois a lista é grande.
E o grande campeão de angustias qual é? O amor. E dentro do amor estão os relacionamentos, e um pior que o outro. O que mais me espanta é um amigo que entrava várias vezes no MSN para queixar-se de sua namorada e perguntava o que deveria fazer (logo pra mim que não namoro? risos). Detalhe, a criatura mora em São Paulo! No fim do mundo! Agora como sou jovem e religioso da forma tradicional, gosto até da missa em latim (coisa rara esses dias), o povo deve achar que sou padre mesmo, ou ao menos seminarista. E assim sendo desabafam muito. É bom que o façam sempre, não só comigo, mas com quem julgarem aptos para ouvi-los.
Depois da tempestade vem a calmaria, e pondo os problemas pra fora é mais fácil de se chegar em tal calmaria. Assim ela fica de bem consigo e com o mundo ao seu redor.
Por fim devo dizer o seguinte: a característica que mais se espera de um amigo é um ouvido acessível (Maya Angelou).

Desterro, 26 de Agosto de 2009.

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