terça-feira, 3 de novembro de 2015

Das cinzas as cinzas do pó ao pó

Ontem, dia de finados, conversei muito com uma amiga acerca de algumas questões teológicas e espirituais sobre a cremação. A questão que surgiu foi se a alma/espírito sentiria algo nesse processo tão radical. A primeira questão que levanto, e sempre a abordei de forma objetiva é o tempo que essa alma leva para separar-se por completo do corpo já sem vida. Pois, admitir que a separação seja imediata, é, no mínimo pressupor que essa alma vá imediatamente para algum lugar, independentemente de ser o céu, inferno, purgatório ou mesmo o limbo.

Mas, sempre pensei que esses quatro lugares são como repartições, órgãos e entidades públicas, tais como prefeituras, escolas, hospitais, e outros sem número de possibilidades que só fazem a burocracia aumentar. Ir para qualquer desses lugares, é sem a menor sombra de dúvida, uma odisseia além-túmulo.

Partindo desse princípio, o julgamento, segundo Paulo (V. Hebreus 9:27 e 28) é após a única morte o homem será julgado. Penso que a pauta de julgamento está bem conturbada, e está saindo processos pelas nuvens a fora.  Então há uma “sala de espera”, tipo dessas bem “descuncumbelhadas” que tem em toda a rodoviária, e por ali fica a alma mesmo. Ou ela fica junto ao corpo que logo apresentará os livores e o rigor mortis, ficará ali tentando compreender que ela já não pertence mais ao mundo dos vivos.

Penso que a ascensão direta e imediata aos céus, nirvana, valhalla, campos elísios, fábrica de toblerone , seja qual for o nome, ocorrem com pessoas como a Irmã Dulce da Bahia. E por lógica, o inferno a Mao Tsé-Tung responsável pela morte de 70.000.000 (setenta milhões) de pessoas (embora as pessoas só lembrem-se do imbecil austríaco).

E quanto a nós? Simples e meros mortais sem grandes feitos em nossas vidas (bons ou não)? Penso que, quem ao forno for, mesmo que por tendências ecológicas, vai por assim dizer, passar calor. Teologicamente você será o touro de Lucas, oferecido em holocausto, porém o sentido é outro, e fico pensando se o odor seria agradável a Deus (V. Núm. 29 e Lc. 1).

Para mim é muito achismo e muita aparência. Assim, como as pessoas que eu rotulo como “sepulcros caiados”. Sim, eu rotulo as pessoas, após uma curiosa análise, eu as rotulo, uma a uma, faço isso com qualquer um, afinal, é do ser humano rotular. Se o leitor pensar em me criticar, eu o chamarei de hipócrita, pois sei bem que todos fazem isso, as pessoas sentem uma constante necessidade de se enturmar, de serem aceitas em um grupo, família, sociedade. As pessoas se auto rotulam. Definitivamente, eu não posso ser criticado por admitir e constatar isso tudo. A rotulação é minha, é pessoal e secreta.

Sim, é lógico que pela pecha da carne eu, como qualquer um cometo erros. Já achei que algumas pessoas eram, digamos, no mínimo desagradáveis, mas, com o tempo isso mudou; e também já rotulei outras como “irmã Dulce”, mas na realidade era apenas Bezaliel, um demônio (ou anjo caído com o Lulu, se preferirem). Por isso que tenho guardado meus rótulos para mim. Se a pessoa passou por um mau julgamento de mim parte, é uma grata surpresa quando percebo o erro e vejo que há algo de bom ali. Mas, em sentido oposto, a decepção (por assim dizer) é bem maior quando vejo uma pessoa que eu julgava ser mais evoluída e espiritualizada pôr as garras de fora. Mas, como sentencia um velho adágio: “a cruz nos peitos e o diabo nos feitos”, ou como disse um Francisco (não, não é o argentino) é como “dar a carne ao diabo e os ossos para Deus”, ou para a deusa que estapeia, conforme o panteão.

Eu realmente acreditava que não comer carne (ou melhor, conseguir abster-se dela) por questão religiosas era um sinal de espiritualidade elevada. Aí me toquei que Hitler era vegetariano, além é claro, de não beber, fumar, ou prevaricar (sim, é uma piadinha sobre um ministro também, fica aqui a referência).

Enfim, você se dá conta, que essa pessoa “evoluída” é a mesma que te prejudica, deliberadamente por seu gosto mais apurado, uma preferência política distinta e incomum, uma cultura superior, uma posição social melhor, ou simplesmente, por que seu senso estético é mais apurado, seu conceito de arte e de belo é distinto.

Você não pode jamais dizer que o belo é o que você ama, pois a criatura não amada se sente feia. Quando você diz do que gosta, você é rechaçado por isso (vou deixar outra ref. aqui: “A História da Beleza”, de H. Eco).

Alguns vão realmente se doer por que você aprecia, por exemplo, as formas clássicas das esculturas renascentistas, barrocas, ou as telas do romantismo alemão. Falar em Pietà e Davi (de Michelangelo), Cristo Velato (de Giuseppe Sanmartino), Le Génie du Mal (de Guillaume Geefs), Ratto di Proserpina (Bernini) é uma afronta. Não tem como não se encantar com a alva carrara, não há como não se apaixonar por seus corpos delgados, e como não apreciar uma escultura de primeira.

Alguns gostam das Vênus Esteatopígicas (V. Vênus de Willendorf). É direito de cada um gostar, ou não, assim como se tem o direito de expressar isso.

O problema dos rótulos hoje, é que eles evoluíram, ou melhor, involuíram... Hoje eles não servem apenas para identificar a principal característica de alguém, hoje esses rótulos servem para que os preconceitos sejam aflorados, exteriorizados. Há também nesses dias a questão do politicamente correto, que chegou a tal ponto, que o Professor Karnal não faz mais metáforas com o autismo por exemplo. Agora somente se fala em “isolamento odontológico e heurístico”. Tudo bem, mas voltando, hoje gostar de Murillo, Velásquez, Bouguereau, Friedrich, Doré, Caravaggio, Coubert e não gostar de Miró, Escher e Dali é um verdadeiro problema, pois você é preconceituoso. Ai você ganha esse rótulo abertamente.

Pelo politicamente correto não se pode mais exaltar as qualidades do que você gosta, como por exemplo, a escultura do Cristo Velato de Sanmartino. A beleza (que está nos olhos de quem vê) do corpo maltratado e sem vida de Nosso Salvador, envolto em um fino sudário certamente ofende quem admira uma escultura tipo Romero Britto.

Dizer que você não gosta do MC sei-lá-o-quê, do Britto, do Paulo Coelho, de funk, ou não gostar do trabalho de um ator que ganhou a Framboesa de Ouro é uma monstruosidade de uma hediondez sem par, algo comparável às atrocidades dos fanáticos islâmicos (e alguns cristãos, e outras religiões também, que entram por legenda). Enfim, qualquer coisa que você não goste pode ser rotulada de preconceito.

Seria preconceito meu em dizer que essa alegoria toda foi apenas para pessoas intelectuais? É preconceito meu dizer que hoje as pessoas são niveladas por baixo? E com razão!
Eis que por tanta apuração minha, alguém teria se ofendido e teria se empenhado em uma verdadeira cruzada por vingança, só por que eu não aprecio as esculturas “zen-niponísticas”. Isso é demais para mim.

Para tentar elucidar essa questão curiosa questão, vou tentar alguns caminhos... Digamos que um compositor como Mahler pergunte a mim: “que tipo de música você gosta?” E eu respondo que gosto da pegada repleta de irascibilidade de Beethoven, da racionalidade matemática de Bach e do appassionato de Brahms. Nisso, nosso amigo Mahler se ofende e desfralda sua ira, mostrando, mesmo que de forma sutil, quem realmente ele é. Acredite quem quiser. E quem não acreditar ou conhecer, que compre!

Mahler vai continuar escrevendo suas sinfonias com solo de marretas por ai. As ouça quem quiser. O mais divertido é que nos tempos que nosso amigo me aprontava umas, tudo deu errado na sua vida, e até com a polícia ele se incomodou. Não é mais fácil cuidar da própria vida?

Eis a hora de rever o rótulo empregado nesse caso: onde outrora havia um “zen”, vou pôr outro rótulo, com a gravura de um crânio com um par de tíbias acrescido com o termo “veneno”. É nessas horas que eu brinco com Rousseau e digo que pode até nascer bom, mas antropofagicamente ele se corrompe. É... Mais uma vez me decepcionei com um amigo, ou melhor, alguém que eu pensei que fosse um. Alguns dizem que o nome disso não é “amizade” mas sim “filhadaputagem”. Seria isso, ou coisa pior?

Em uma longa análise e em um longo debate com a amiga do inicio da crônica, chegamos à conclusão que faltou um rótulo a mais para Mahler: o da inveja. Afinal, os nomes dos invejados formam uma boa lista.

Imperioso é nos afastarmos o quanto antes desse tipo pessoas, amigos, ou seja lá quem for que tenha qualquer tipo de inveja de você. Afinal, quem ter a sua volta pessoas negativas que se escondem atrás de um jardinzinho zen, pessoas que não conseguem ficar feliz por nossos sucessos, por nossas conquistas, enfim, por nossa felicidade. J.K. Rowling foi muito feliz ao criar a figura do dementador, que é um espectro que se alimenta da felicidade das pessoas.

Devemos ter muita atenção nas pessoas ao nosso redor. Muitas usam máscaras, e se olharmos bem, iremos notar que por detrás dessas máscaras, sempre cai um pouco das cinzas, como aquelas que sobram nos fornos. Aquele pó cinzento que nos indica que um dia aquilo já fui um ser humano.



NªSªD., madrugada de 2 e 3 de novembro de 2.015. 

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