Desterro,
10 de janeiro de 2017.
Na
noite de 13 de dezembro de 2016, o Coral Santa Cecília fez a sua tradicional
festinha de fim de ano. Um pouco diferente dos outros anos, pois não tivemos a
Santa Missa que sempre antecede o jantar. Não entendi muito bem o motivo (ou
melhor, eu prefiro não entender), mas, ao que parece a igreja que utilizaríamos
estaria ocupada naquela noite.
Ao dirigir-me
ao salão paroquial, passei pelo lado de fora da igreja, reparei que dentro dela
não havia nenhuma luz, seus lindos vitrais da Casa Conrado de São Paulo,
estavam todos negros, isso me chamou muito a atenção, mas não entendi o que
Deus queria me dizer com toda aquela escuridão, porém, dentro de 22 dias eu
tristemente compreenderia aquela escuridão.
Já era
dia 14 de dezembro, dia de São João da Cruz, o Santo místico e poeta espanhol
que escreveu a “Noite Escura da Alma”, não haveria dia mais emblemática para
iniciar-se uma marcha ao suplício, uma peregrinação sem volta ao Gólgota. Neste
dia, nosso regente, padre, amigo, pai, o nosso Ney Brasil Pereira era internado
no Imperial Hospital de Caridade para a sua última provação terrena.
A
noite do jantar, eu hoje eu entendo fez as vezes de despedida, conversamos
muito, rimos, comentei de um desejo meu de um mestrado em direito canônico ao
qual ele ficou muito feliz com a notícia, e muito me incentivou... ele sempre
me incentivou em tudo enquanto muitos me colocavam para baixo... Com profunda
gratidão e admiração digo que Ney Brasil financiou minhas aulas de piano, e o meu
piano Essenfelder ali na sala foi
tocado e bento por ele. A amizade cresceu com o tempo, e justa e curiosamente o
tempo é responsável por tudo, ele cria, e ele como personagem implacável em
nossas vidas, ele apaga. Mas encontramos em Ney Brasil a exceção à regra, pois
ele alcançou a imortalidade.
Naquela
noite ele me disse como sempre em meio ao seu olhar discreto, profundo e por
vezes curioso: “Meu Deus, como estais gordo”, e eu dei a resposta de sempre
“Graças a Deus”. Penso que nos dávamos bem, pois eu não vi nele somente um
padre... eu lhe respondia, lhe contava besteiras e piadas... Ele foi um dos
últimos padres santos.
No dia
4 de janeiro, tudo mudou. Mudou de mudar e mudou de mudo, sua música ficou
muda, não ouviremos mais sua sonora voz nem o som daquele órgão alemão e do
coral que ele magistralmente conduzira por quase meio século, ele se entregara
e sua alma voltara ao Deus que ele tanto amou e serviu. Em meio ao luto surgira
o sentimento de revolta, pois, quantos estão aí vivos, alguns vivendo mais de
um século, sendo que nós indevidamente julgamos que não deveriam estar mais
aqui e o nosso santinho se foi.
Nós
sabíamos que era a última vez que o veríamos, era um dia comum e quente de
janeiro, às 16 horas a Florianópolis que ele adotou como sua lotou a Catedral
para o último adeus, para ali nos despedirmos e vermos pela última vez o nosso terno
amigo em sua dimensão humana.
No
cemitério, a bênção da sepultura, o último canto para que a terra nua recebesse
seu invólucro perecível, pois sua alma hoje contempla o Senhor.
No dia 4, “o sol não retardou sua alvorada
nem seu ocaso”, pássaros cantavam ao amanhecer, o dia sombrio se foi, e a vida
segue seu curso em meio a tanta saudade. Um dia, nos juntaremos a ele, junto
com tantos outros do coral num coro celeste.
Assim seja.
*Gólgota, lugar da caveira,
pela tradição é o túmulo de Adão, também conhecido em latim como Calvaria, ou
seja Calvário.

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