terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Nosso Santinho

Desterro, 10 de janeiro de 2017.

Na noite de 13 de dezembro de 2016, o Coral Santa Cecília fez a sua tradicional festinha de fim de ano. Um pouco diferente dos outros anos, pois não tivemos a Santa Missa que sempre antecede o jantar. Não entendi muito bem o motivo (ou melhor, eu prefiro não entender), mas, ao que parece a igreja que utilizaríamos estaria ocupada naquela noite.

Ao dirigir-me ao salão paroquial, passei pelo lado de fora da igreja, reparei que dentro dela não havia nenhuma luz, seus lindos vitrais da Casa Conrado de São Paulo, estavam todos negros, isso me chamou muito a atenção, mas não entendi o que Deus queria me dizer com toda aquela escuridão, porém, dentro de 22 dias eu tristemente compreenderia aquela escuridão.

Já era dia 14 de dezembro, dia de São João da Cruz, o Santo místico e poeta espanhol que escreveu a “Noite Escura da Alma”, não haveria dia mais emblemática para iniciar-se uma marcha ao suplício, uma peregrinação sem volta ao Gólgota. Neste dia, nosso regente, padre, amigo, pai, o nosso Ney Brasil Pereira era internado no Imperial Hospital de Caridade para a sua última provação terrena.

A noite do jantar, eu hoje eu entendo fez as vezes de despedida, conversamos muito, rimos, comentei de um desejo meu de um mestrado em direito canônico ao qual ele ficou muito feliz com a notícia, e muito me incentivou... ele sempre me incentivou em tudo enquanto muitos me colocavam para baixo... Com profunda gratidão e admiração digo que Ney Brasil financiou minhas aulas de piano, e o meu piano Essenfelder ali na sala foi tocado e bento por ele. A amizade cresceu com o tempo, e justa e curiosamente o tempo é responsável por tudo, ele cria, e ele como personagem implacável em nossas vidas, ele apaga. Mas encontramos em Ney Brasil a exceção à regra, pois ele alcançou a imortalidade.   

Naquela noite ele me disse como sempre em meio ao seu olhar discreto, profundo e por vezes curioso: “Meu Deus, como estais gordo”, e eu dei a resposta de sempre “Graças a Deus”. Penso que nos dávamos bem, pois eu não vi nele somente um padre... eu lhe respondia, lhe contava besteiras e piadas... Ele foi um dos últimos padres santos. 

No dia 4 de janeiro, tudo mudou. Mudou de mudar e mudou de mudo, sua música ficou muda, não ouviremos mais sua sonora voz nem o som daquele órgão alemão e do coral que ele magistralmente conduzira por quase meio século, ele se entregara e sua alma voltara ao Deus que ele tanto amou e serviu. Em meio ao luto surgira o sentimento de revolta, pois, quantos estão aí vivos, alguns vivendo mais de um século, sendo que nós indevidamente julgamos que não deveriam estar mais aqui e o nosso santinho se foi.

Nós sabíamos que era a última vez que o veríamos, era um dia comum e quente de janeiro, às 16 horas a Florianópolis que ele adotou como sua lotou a Catedral para o último adeus, para ali nos despedirmos e vermos pela última vez o nosso terno amigo em sua dimensão humana.

No cemitério, a bênção da sepultura, o último canto para que a terra nua recebesse seu invólucro perecível, pois sua alma hoje contempla o Senhor.
No dia 4, “o sol não retardou sua alvorada nem seu ocaso”, pássaros cantavam ao amanhecer, o dia sombrio se foi, e a vida segue seu curso em meio a tanta saudade. Um dia, nos juntaremos a ele, junto com tantos outros do coral num coro celeste.

Assim seja.


*Gólgota, lugar da caveira, pela tradição é o túmulo de Adão, também conhecido em latim como Calvaria, ou seja Calvário.

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