quinta-feira, 12 de maio de 2016

Academias


No dia da Procissão de Passos deste ano, fui até o Imperial Hospital de Caridade para tratar de uma dor de ouvido e de garganta que já durava alguns dias. Durante a triagem, a enfermeira utilizou um esfigmomanômetro que mais parecia um estabilizador de computador. Muito embora aparentasse ser um aparelho moderno, digital, com sei lá mais o quê, ele não era aquilo tudo, ou como se diz: “não era uma brastemp”. Após três tentativas frustradas de aferir minha pressão arterial, e eu que já estava de saco cheio daquela braçadeira me apertando, perguntei de não tinha um esfigmomanômetro analógico mesmo. Esses não te deixam na mão. Resultado: foi de primeira! Marcação foi tipo “hosana”, nas alturas e a triste marca de 190 por 120, ou 19 por 12.

Então, após a tradicional losartana, ou algo do tipo, e mais algumas horas ali esperando o efeito da medicação, fui consultar e os médicos que me atenderam recomendaram dentre outras mil coisas, exercícios físicos. Então, alguns dias depois, lá estava eu, mais possesso que uma criança contrariada, indo fazer minha matrícula em uma academia aqui perto de casa.  Frequento a um mês. E nesse meio tempo percebi que não fiquei tão dolorido como o povo diz por aí, notei que perdi cerca de um quilo e meio, e reparei que as segundas-feiras a densidade demográfica da academia aumenta vertiginosamente, mas, as sextas-feiras é um deserto. Em uma segunda-feira comecei a observar entre uma pedalada e outra, quais eram as pessoas ao meu redor, comecei a observar essas pessoas neuróticas por ferros em seu habitat natural, mesmo que eu fosse a única coisa que destoasse dali – me senti um anjo barroco numa daquelas aberrações que o arquiteto comunista chamava de “igreja” – mas, certo que pedalando e fazendo o que os demais faziam eu passaria despercebido, e assim descobri o homo brachio ferrum[1], um espécime nada raro, na verdade eles pululam mais que vendedores de guarda-chuvas em dia de temporal.

Esses seres, geralmente possuem o ego grande, mas o alter ego, o superego e o Id são bem mais inflados que o próprio indivíduo. Dizia Franklin que um homem cheio de si faz pouco volume. Bem, eis ai a exceção à regra! Falando em regras, pareceu-me muito comum uma série de hábitos que parecem verdadeiros “cânones pétreos”, tais como: usar roupas que valorizem o físico (embora algumas pessoas indispõem-se caso recebam e percebam algum olhar mais atento. Parecem que querem mostrar, mas ninguém pode ver... aind anão compreendi muito isso), gemer e fazer cara feia ao levantar peso, esses mesmos pesos não são guardados (por isso há academias que pregam uma tabuleta na parede com os seguintes dizeres “quem não guarda os pesos é corno”), e quando esses pesos, halteres e afins são soltos, é bom deixar cair um pouco no chão para fazer algum barulho. Afinal, terra tremuit et quievit[2]! É crer para ver! Entre tremores e silêncios as pessoas a sua volta tem o dever de saber quanto ferro o homo brachio ferrum consegue levantar! Percebemos isso, quando o silêncio é quebrado pelos gemidos e pelo strepitus[3] do peso que “treme a terra”.

Em um mundo cada vez mais secularizado houve então o surgimento de um nicho para um novo culto: o culto ao belo (leia-se: ao fútil). Poucos estão lá por que necessitam de saúde, bem estar e qualidade de vida. O negócio é ter corpão, e o pior: ninguém admite isso! Por isso que digo que é fútil mesmo, e também hipócrita. Quem não se enquadra no novo estereótipo, o do “corpão”, acaba sendo excluído de alguma forma dessa sociedade que valoriza mais fortitudo do que a sapientia[4].  Nisso surgiram uma série de coisas (ou sempre existiram, mas veladas?), como piadinhas, exclusões e até a tal da gordofobia, que ninguém fala, ninguém conhece, mas todos vêem o gordo e o excluem.

Vou continuar com o meu in medio stat virtus, e vou ter saúde e uma aparência melhor. Como costumo erguer livros, terei um plus de um bom e diversificado conteúdo.       

Por fim, seria injusto de minha parte não mencionar algumas das qualidades desta tão singular espécie: ao menos no seu habitat natural ele são geralmente corteses, pedem desculpas se esbarram em você (mas não esbarre com eles numa ‘balada’, nunca mesmo), perguntam educadamente se você vai utilizar algum aparelho se você está perto dele, e o mais curioso, são bem atenciosos com os idosos. Fofo, não? Para não dizer surreal.

N.S.D., 12 de maio de 2016.


[1] Homo brachio ferrum: literalmente “homem do braço de ferro, uma jocosa brincadeira.
[2] Terra Tremuit et quievit: Sl. 75.
[3] Strepitus: ruído.
[4] Força e Sabedoria, respectivamente. 

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