domingo, 29 de outubro de 2017

Ubi Charitas et Amor, Deus ibi est.



N. S. D., 29 de outubro de 2017.

Missa na Irmandade do Rosário, cantei com o coro, tudo tranquilo e habitual.
O que chamou a atenção hoje foram as leituras, e é claro, a homilia.

Quanto às leituras, a primeira foi do Livro do Êxodo, capítulo 22, versículos 20 a 26, onde há uma exortação para não oprimir o estrangeiro, não fazer mal à viúva, não cobrar juros caso se empreste dinheiro. Algo como não faça ao próximo o que não queres te façam a ti[1]”. Mas confesso que nunca compreendi muito bem os versículos 21-23 e 26, onde os maltratados gritarão por Deus e Ele matará a espada o malfazejo, mas o vers. 26 fala que Ele é misericordioso.

Mais uma vez caio do dilema da Misericórdia versus Justiça, onde para alguns são opostos, e para outros são sinônimos.  Sob o motto Misericordia et Justitia o Santo Ofício perseguia os “hereges”... Fico imaginando se o lema fosse “queimar e matar”. Um dia acabarei com essa dúvida de justiça e misericórdia, e que seja durante o tête-à-tête[2] que teremos para contemplar o Criador.

Mas, voltando às leituras, a seguinte foi o Salmo 17 em resposta à primeira leitura. Este salmo relata o amor que temos a Deus por Ele ser nosso refúgio, salvador e senhor. Já a Segunda Leitura foi retirada da Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses (1,5c-10) que relata o valor da Palavra e da Fé, divulgada por toda a parte, e a grande cereja do bolo dessas leituras é o Evangelho do dia: São Mateus 22:34-40, onde perguntaram a Jesus qual é o maior mandamento, e ele sem rodeios responde: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!' Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas.
Pelo óbvio ululante, não fica difícil de imaginar que os cantos dessa missa foram “O Novo Mandamento[3]”, “Onde o Amor e a Caridade[4]”, “Prova de Amor maior não há[5]”, e a homilia foi orientada por esta mesma palavra em comum em todas essas músicas e em duas leituras: amor.
Ouvi tanto falar em amor ao próximo, e fiquei pensando: o que mais vejo é o julgar do próximo, ou, o mais provável: falta de amor próprio.
Diante daquela quantidade absurda de amor, amor ao próximo e Deus no coração, lembrei-me de uma passagem da obra “O Auto da Compadecida” do imortal, "imorrível" e vivente eterno Alessandro Suassuna, onde encontramos João Grilo, Rosinha e Chicó que são interpelados por um mendigo que  pede pão. João Grilo nega o pedido, mas Rosinha dá o pão ao pedinte, e quando este se vai, ela diz: “Jesus às vezes se disfarça de mendigo para testar a bondade dos homens”.
Isso me remete a uma frase que certa vez vi na internet: “E se os homossexuais fossem um plano de Deus para testar seu amor ao próximo, você estaria salvo?”.
Um amor ao próximo, um ágape, sem credo, cor, gênero, raça, poréns, ou seja, incondicional.
Mas, como dizem, é mais fácil eu odiar nos outros aquilo que eu não gosto em mim.
Onde está esse amor da Igreja? Acho que devo perguntar ao Padre Krzysztof Charamsa.
Por fim, faltam espelhos por ai, mesmo que este fique em frente a quem não quer ver. Mas, ele está lá, é o que importa.  
Saindo da igreja, encontro uma parede pichada: “só através do amor é possível alcançar a paz!”




[1] A chamada Regra de Ouro ou Lei dos Profetas, em São Mateus, 7:12 e São Lucas 6:31.
[2] São Tomás de Aquino (1225-74), frade católico conhecido por sua teologia e filosofia. Aquino em seu “Adoro Te devote” nos trás: “Iesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sitio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae.” (Em pt.: Jesus, a quem agora vejo sob véus, peço-te que se cumpra o que mais desejo: que vendo o Teu rosto descoberto, seja eu feliz contemplando a Tua glória).
[3] “Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei”, texto bíblico musicado pelo Pe. Ney Brasil.
[4] “Onde (há) o amor e a caridade, Deus aí está”, musicado pelo Pe. Ney Brasil.
[5] “Prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”, de autoria do Pe. José Webber.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O Homem Nu

Segunda-feira, dia 9, pela primeira vez alguém comentou que eu tenho defendido nas redes sociais a livre manifestação da arte em museus. É verdade, e permitam-me uma brincadeira, é uma verdade pura, crua e... nua.
Estranhei inclusive, pois demorou para que alguém notasse essas postagens e ideias, mas enfim, notaram, e recebi um comentário em uma conversa com um velho amigo que apenas comunicava que tinha lido tais ideias, logo não houve ataques e adjetivações, houve na verdade uma boa maturidade, esta que falta em tantas discussões hoje.
Mas eu perco as estribeiras? Claro! Sou um ser humano, nasci sobre a pecha da carne, e perco a paciência como qualquer um, perco a paciência em especial com quem não dispõe um pouco de tempo e boa vontade para discorrer sobre a tese, a antítese e a síntese. Vejo apenas opiniões já formadas por desconhecidos, onde alguém vê e compartilha a opinião de um terceiro desconhecido que é tido por muitas vezes como “formador de opinião”.
A arte é para escandalizar, provocar, contrariar... e fazer pensar. Eis a nudez do homem, nu, despido, desprovido de intelecto.  Se a tal mostra do MAM foi ou é arte, não sei, não sou crítico de arte. Alguns a consideram outros não, mas penso que muitos se escandalizaram no século XVI com Michelangelo[1] ao esculpir o seu Davi, ou com toda aquela nudez da Capela Sistina, ou com Caravaggio[2] na transição dos séculos XVI e XVII ao utilizar seus namorados como modelos para retratar santos em poses incomuns.  
Poderia citar mais, como a La Maja Desnuda (e depois vestida) de Goya[3], A Origem do Mundo, por Gustave Courbet[4] extremamente icônico ao retratar um nu frontal, uma vagina em close, o Abapuru de Tarsila[5] ou Lúcifer seminu e sedutor, sobre uma rocha como se pode perceber na obra Le Génie du Mal, esculpida por Geefs[6] para a Catedral de São Paulo, na cidade de Liège, Bélgica. Poderia citar o Cristo Velato de Sanmartino[7] (de longe a mais bela dessas obras). Curiosamente sempre encontramos um Cristo com poucas vestes nessas obras.  
A questão aqui não é a nudez! E sim uma imprudência dos responsáveis pela menina que a levaram naquele museu, pelo simples fato que crianças devem ser resguardadas desse e de outros tipos de abuso. Sou eu quem diz? Absolutamente, e sim o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA[8]) que veta esse tipo de exposição, de violência, risco, nudez. É lei, cumpra-se, e cumprir a lei é fazer justiça, e como reza um velho brocardo fiat justitia, pereat mundus[9]!
Seria aquela nudez a primeira que esta criança teria visto? Duvido muito. Essa criança deve ser exposta a essa nudez? Não, uma vez que ela não tem discernimento para o certo e o errado (como tantos adultos), a nudez vista furtivamente (e indevidamente) de seus pais em casa ao ir ao banho, será para uma criança diferente de uma nudez de um abusador? Eis aqui um enfático e sonoro não. Por isso todo esse cuidado.
Existe alguma diferença entre uma criança branca, de classe média, de família que segue os bons costumes, família esta que é defensora da moral, das virtudes, enfim uma família cristã e uma criança pobre, negra, morando em um barracão em uma favela, que por muitas vezes não possui nem o básico para viver com dignidade?
Recentemente encontrei alguns registros fotográficos, um deles é um corpo de uma mulher que fora assassinada, um corpo caído no chão, numa viela de favela, coberto por um lençol velho dado por um vizinho mais piedoso, e essa cena era assistida por várias crianças. Lembro também de outro registro, o de várias crianças se amontoando em um dos respiros de ar quente do metrô de São Paulo para se aquecerem em um inverno rigoroso. Candelária, alguém lembra? Crianças famélicas no tempo de um  governo federal dos anos 90, alguém se importa?
Por que uma criança merece ser protegida em uma redoma e a outra deve viver como um animal?
Vejo por ai, postagens em redes socais de um projetil, como o de um fuzil, e junto a imagem da bala há uma inscrição “chip para curar bandido”. Vale lembrar que o filho dos outros é sempre um bandido que deve ser morto, mas e se for o seu filho? Queria ver você dizer que ele não é mais seu filho, que ele agora é um delinquente, um bandido que merece morrer. Queria mesmo ver você ser forte e coerente o suficiente para puxar o gatilho enquanto você empunha a arma na cabeça do seu filho.
Esse é o tipo de pessoa de bem, de valores, classe média, cis, hétero, caucasiana e cristã que temos por ai, é essa pessoa que diz que “bandido bom é bandido morto”, e depois comemora a Páscoa de Cristo.
E falando em símbolos religiosos, que tal defender primeiro os terreiros que são atacados aos montes por ai, destruídos, vandalizados, queimados! E me alegro em dizer que não é o ISIS que faz isso (e não ponham palavras na minha boca, pois nem todo o mulçumano é terrorista). O ISIS não necessita fazer terrorismo no Brasil, por motivos óbvios. Afinal, temos até fiscal de c* alheio por aqui.
O que as pessoas não entendem é que ”Jesus tem pavor de gente de bem, Jesus detesta os fariseus (hipócritas), Ele tinha raiva dessas pessoas que fazem jejum, yom kippur e jogam cinza na cabeça, Ele tinha raiva do rico que dava esmola”[10], Ele tinha horror a defensores da moral e dos bons costumes. Cristo gostava dos excluídos, dos pobres, das prostitutas, dos samaritanos, hoje procuraria transexuais[11].
É excruciante dialogar com pessoas que não aceitam uma ideia diferente, que travestem seus preconceitos com a roupagem da opinião e do direito de manifestação “intelectual”. Poderia escrever aqui sobre as palavras παις e δουλος[12] que aparecem na Septuaginta, e em especial em São Mateus 8 e São Lucas 7, onde é possível que o Centurião de Cafarnaum não fosse ter com Jesus para curar seu escravo ou mesmo um filho. Então quem era? Explanar sobre isso hoje é a mesma coisa com a qual Cristo nos alertava quando disse para não jogar pérolas aos porcos[13]. Mas mesmo assim é imperioso explicar coisas mais urgentes que grego antigo na Septuaginta, é necessário combater o flagelo da ignorância, é necessário conversar e muito com essa gente que primeiro observo a idade, se for velha, sou complacente e penso que são senis, e se forem jovens é mau caráter mesmo.
Conversar, instruir, trazer luz e afastar as trevas da ignorância, por quê segundo Nelson Rodrigues[14] os idiotas vão tomar conta do mundo. Não por capacidade, mas por quantidade, afinal eles são muitos.
Sim, pedofilia não é arte.  Mas recordo também do na Musa do Impeachment, completamente nua em via pública. Trago à luz as frases que ouvi na época desse impeachment, onde homens diziam ”tiramos esse canhão e a troca só pela primeira dama já vale a pena”. Discorro sobre uma cidadã que no carnaval deste ano se coloriu com uma pintura corporal que na verdade era o desenho de nossa bandeira, e quando esta cidadã se abaixava, mostrava aquilo que o dito popular reza.
Recordo de uma apresentadora de programas infantis dos anos 80/90, sempre em trajes menores.
Esta semana, um controverso apresentador deu a uma jovem de 15 anos que foi ao seu programa de entrevistas vodca para beber. Ainda esta semana tivemos mais um caso de pedofilia em uma igreja. É um fato incontestável que o Brasil possui muito mais igrejas que museus para serem investigados e censurados.
Existem muitas crianças por ai necessitando de ajuda. Não sejam seletivos!
Recordo do sermão da Missa do Galo do último natal, na Basílica de São Pedro, onde o Papa falava das crianças que não tem brinquedos para brincar, mas armas para empunhar!
E lembrem-se: se seu filho for desobediente, arraste-o para a entrada da cidade, chame todos os cidadãos e apedreje-o até a morte! “Palavra da Salvação” em Deuteronômio 21:18-21 (e pelo amor que tens a sua mãe, não me venha com “isso é um versículo tirado do seu contexto”... todo mundo que fala isso já se valeu desse método para justificar seus preconceitos).  
Ah, quase esqueci, feliz dia das crianças.

Desterro, 12 de outubro de 2017.



[1] Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, 1475-1564, pintor, escultor, poeta e arquiteto do renascimento italiano.
[2] Michelangelo Merisi, cujo nome artístico era Caravaggio, 1571-1610, pintor italiano.
[3] Francisco José de Goya y Lucientes, 1746-1828, foi um pintor e gravador espanhol.
[4] Gustave Courbet, 1819-1877, pintor francês que se dedicou ao realismo, romantismo e academicismo.
[5] Tarsila do Amaral, 1886-1973, pintora pós-impressionista brasileira.
[6] Guillaume Geefs, 1805-1883, escultor belga.
[7] Giuseppe Sanmartino, 1720-1793, escultor italiano.
[8] Lei nº 8.069, de 13 de Julho de 1990.
[9] Latim: Faça justiça mesmo que o mundo pereça.
[10] Leandro Karnal, lançamento do Livro “Crer ou não Crer”, disponível em www.youtube.com.
[11] Idem.
[12] Grego: παις e δουλος, transliterado como pais e doulos, traduzido como criança e escravo.
[13] Evangelho Segundo São Mateus, 7.
[14] Nelson Falcão Rodrigues foi um teatrólogo, jornalista, romancista, folhetinista e cronista de costumes e de futebol brasileiro.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Ódio - Título provisório



NB. Ainda vou revisar muitas coisas nesse texto, mas vai uma prévia para vocês!




N.S.D., 06 de setembro de 2017
Recebi hoje num daqueles grupos de “bom dia” do whatsapp um áudio do Mário Sérgio Cortella sobre o ódio. Ele relata (no áudio de 1 minuto e 57 segundos) a manifestação do ódio, tendo como o exemplo do fratricídio e o ódio que circula nas redes sociais. Cortella discorre que “o ódio corrói quem o têm, e não o alvo dele, o ódio corrói quem odeia, e não a pessoa que é odiada”. Mas, Cortella no seu “efêmero ensaio” sobre o ódio, não o definiu, então, vou me dedicar inicialmente a isso, então, de acordo com Aurélio (1971):
Ódio, s. m. Aversão a uma coisa ou pessoa; inimizade; raiva; rancor; antipatia.
Imperioso é trazer lume ao que for correlato ao assunto, como:
Odioso, adj. Digno de ódio. Detestável; repelente; s.m. aquilo que provoca ódio.
E penso que o verbo não poderia ficar de fora de minha pequena lista:
Odiar, v.t. Ter ódio a; detestar; aborrecer; sentir repugnância por; abominar.

Desta forma, já fica claro que o ódio nada mais é que um sentimento forte que nutrimos por algo ou alguém que nos aborrece, nos traz dissabores, transtornos, e até repugnamos.
Recorri ao “Dicionário de Filosofia” de Nicola Abbagnano, mas, ao que parece ele não se preocupa muito com o ódio, rancor e afins, pois não existem esses verbetes em sua obra. Como Abbagnano me deixou as escuras, recorro às Sagradas Escrituras, que abordam o tema de forma variada, como em um primeiro exemplo, na Bíblia de Jerusalém (2012), onde encontramos o Salmo 97:10:
Iahweh ama quem detesta o mal, Ele guarda a vida dos seus fiéis e da mão dos ímpios os liberta.
O Catecismo da Igreja Católica possui um bom conteúdo sobre o assunto, onde há desde as origens até a condenação ao ódio, como vemos nos seguintes parágrafos:
2262. No sermão da montanha, o Senhor lembra o preceito: “Não matarás” (Mt 5, 21) e acrescenta-lhe a proibição da ira, do ódio e da vingança. Mais ainda: Cristo exige do seu discípulo que ofereça a outra face, que ame os seus inimigos. Ele próprio não Se defendeu e disse a Pedro que deixasse a espada na bainha (Catecismo, 2011).
Quanto suas origens encontramos uma explanação de Santo Agostinho onde a base do ódio é a inveja, como podemos observa no seguinte parágrafo do mesmo catecismo:
2539. A inveja é um vício capital. Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente. Se desejar ao próximo um mal grave, é pecado mortal: Santo Agostinho via na inveja “o pecado diabólico por excelência”. “Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pelo mal do próximo e o desgosto causado pela sua prosperidade” (Catecismo, 2011).
Já vimos que o ódio pode ser bom, como descrito no Salmo 97. Contudo existem outras passagens das Escrituras, uma que se destaca é uma passagem na tradução do Novo Testamente da Bíblia ARA – Almeida Revisada e Atualizada –  (2012) como esta de São Mateus 5:22:
Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento(...).
Por outro lado, São João em 1 S. João 2:9-11 nos traz que “aquele que diz que está na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas” (Almeida, 2012), contudo a questão aqui não é o ódio “gratuito”, pois penso que ele nunca é, mas sim o que encontra-se em Mateus 20:4, “e aquilo que for justo, eu vo-lo darei”.
Penso que o ódio esteja ligado à justiça, ou ao seu “alter ego” que não goza de tantas honras, esse alter ego que chamamos de vingança, que pode ser também uma “forma” de justiça, contudo vetada pelo pacto social e por lei.  Você nute algum sentimento ruim por algo, pois entende que aquilo está errado.
Há um costume terrível entre os brasileiros, pois, os que exigem seus direitos, que exigem o mero cumprimento da lei são taxados como chatos, barraquentos, bringuentos, fomentadores de rolos e discórdias. Você é mal visto só por querer o certo e o legal! (sem contar que há quem diga que você interpreta a lei da forma que lhe convém... bem lamento informar, para isso há jurisprudência).
Um sujeito não pode dizer que o meu “ódio” por algo, alguém ou situação é ruim, desnecessário como também ele não pode vir com o discursinho que “isso vai ter fazer mal”, quando ele mesmo nutre um ódio profundo e diz que o ex-presidente Luiz Inácio é um traidor que “deveria ser enforcado em praça pública”.
Todo o livro tem uma carga de ódio, o ser humano é assim, como podemos notar no Alcorão, Sura da Vaca – 02, versículo 191 onde os infiéis devem ser mortos. Na Bíblia, temos a passagem de 2 Reis 2:23-24 onde Eliseu praguejou para que duas ursas matassem 42 crianças. A Torá também não escapa em diversas passagens, até do Gênesis, onde Deus nos expulsou do Jardim (Gn. 3:1-24), destruir a terra no dilúvio (Gn. 5), a destruição de Sodoma (Gn.19:5-16), e não, Sodoma não foi destruída por Sodomia, pesquise!
Alguém pode querer dizer que eu estou pinçando versículos e os retirando do seu contexto, bem, muitos condenam a homossexualidade com Levítico 18:22, 1 Coríntios 6:18, 1 Coríntios 6:9-11 e outras, sempre pinçadas, sempre fora do contexto, sobretudo histórico. Em tais momentos me recordo de como essas passagens são discutíveis e lembro ainda mais, como o relato de cura do “servo” do centurião de Cafarnaum (Mateus 8:5-13 e Lucas. 7:1-10), ou o Novo Mandamento (João 13:34) que fez muita coisa cair por terra. Recordo que Paulo tinha “um certo espinho na carne” dado por um servo de Lúcifer para que ele não se encha de soberba (2 Coríntios 12:7), ou ainda quando Cristo disse que não trouxe a paz e sim a espada (Mateus 10:34).  
Enfim, cada um escolhe o que amar e odiar! O problema é quando o seu ódio contra qualquer um é válido, o meu não.  
Por vezes olhar para si e perceber a "caganifância" que se é, é até bom.


Bibliografia
Bíblia de Jerusalém, Ed. Paulus, São Paulo, 2012;
Catecismo da Igreja Católica, Ed. Loyola, São Paulo, 2011;
Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 10ª edição, Rio, 1971;
Nobre Alcorão, impresso no complexo do Rei Fahd para impressão do Nobre Alcorão,  Arábia Saudita, (1426 Hégira) 2005;
Novo Testamento, Almeida Revista e Atualizada, Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri, 2012;

Torá – A Lei de Moisés – Ed. Sêfer, São Paulo, 2011.

domingo, 3 de setembro de 2017

Saudades de Ti

Faz oito meses que o nosso santinho viveu sua páscoa. Agora em casa me recordo da missa de hoje, alusiva aos oitos meses, onde o canto de comunhão foi pesado para nós do coro:

Me chamastes para caminha na vida contigo... é difícil agora viver sem saudades de Ti.

Acho é uma hora propícia para fazer a listinha das músicas que não podem mais ser cantadas.

Enfim, o tempo passa, ajuda a lidar com a dor, mas não soluciona esse problema.  


N.S.D., 03 de setembro de 2017.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O Nosso Santinho

Desterro, 10 de janeiro de 2017.

Na noite de 13 de dezembro de 2016, o Coral Santa Cecília fez a sua tradicional festinha de fim de ano. Um pouco diferente dos outros anos, pois não tivemos a Santa Missa que sempre antecede o jantar. Não entendi muito bem o motivo (ou melhor, eu prefiro não entender), mas, ao que parece a igreja que utilizaríamos estaria ocupada naquela noite.

Ao dirigir-me ao salão paroquial, passei pelo lado de fora da igreja, reparei que dentro dela não havia nenhuma luz, seus lindos vitrais da Casa Conrado de São Paulo, estavam todos negros, isso me chamou muito a atenção, mas não entendi o que Deus queria me dizer com toda aquela escuridão, porém, dentro de 22 dias eu tristemente compreenderia aquela escuridão.

Já era dia 14 de dezembro, dia de São João da Cruz, o Santo místico e poeta espanhol que escreveu a “Noite Escura da Alma”, não haveria dia mais emblemática para iniciar-se uma marcha ao suplício, uma peregrinação sem volta ao Gólgota. Neste dia, nosso regente, padre, amigo, pai, o nosso Ney Brasil Pereira era internado no Imperial Hospital de Caridade para a sua última provação terrena.

A noite do jantar, eu hoje eu entendo fez as vezes de despedida, conversamos muito, rimos, comentei de um desejo meu de um mestrado em direito canônico ao qual ele ficou muito feliz com a notícia, e muito me incentivou... ele sempre me incentivou em tudo enquanto muitos me colocavam para baixo... Com profunda gratidão e admiração digo que Ney Brasil financiou minhas aulas de piano, e o meu piano Essenfelder ali na sala foi tocado e bento por ele. A amizade cresceu com o tempo, e justa e curiosamente o tempo é responsável por tudo, ele cria, e ele como personagem implacável em nossas vidas, ele apaga. Mas encontramos em Ney Brasil a exceção à regra, pois ele alcançou a imortalidade.   

Naquela noite ele me disse como sempre em meio ao seu olhar discreto, profundo e por vezes curioso: “Meu Deus, como estais gordo”, e eu dei a resposta de sempre “Graças a Deus”. Penso que nos dávamos bem, pois eu não vi nele somente um padre... eu lhe respondia, lhe contava besteiras e piadas... Ele foi um dos últimos padres santos. 

No dia 4 de janeiro, tudo mudou. Mudou de mudar e mudou de mudo, sua música ficou muda, não ouviremos mais sua sonora voz nem o som daquele órgão alemão e do coral que ele magistralmente conduzira por quase meio século, ele se entregara e sua alma voltara ao Deus que ele tanto amou e serviu. Em meio ao luto surgira o sentimento de revolta, pois, quantos estão aí vivos, alguns vivendo mais de um século, sendo que nós indevidamente julgamos que não deveriam estar mais aqui e o nosso santinho se foi.

Nós sabíamos que era a última vez que o veríamos, era um dia comum e quente de janeiro, às 16 horas a Florianópolis que ele adotou como sua lotou a Catedral para o último adeus, para ali nos despedirmos e vermos pela última vez o nosso terno amigo em sua dimensão humana.

No cemitério, a bênção da sepultura, o último canto para que a terra nua recebesse seu invólucro perecível, pois sua alma hoje contempla o Senhor.
No dia 4, “o sol não retardou sua alvorada nem seu ocaso”, pássaros cantavam ao amanhecer, o dia sombrio se foi, e a vida segue seu curso em meio a tanta saudade. Um dia, nos juntaremos a ele, junto com tantos outros do coral num coro celeste.

Assim seja.


*Gólgota, lugar da caveira, pela tradição é o túmulo de Adão, também conhecido em latim como Calvaria, ou seja Calvário.

sábado, 12 de novembro de 2016

Mãos: de bobas às da injustiça.

 Desterro, 12 de novembro de 2016.

Penso que hoje eu posso começar com algo que certa vez eu ouvi, de que a humildade em excesso deixa de ser uma virtude e passa a ser o pecado da vaidade. 

A questão é que senti-me envaidecido como há muito eu não sentia. Motivo? Algo tão singelo, e extremamente trivial para a maioria esmagadora das pessoas. Ser desejado, simples assim. Confesso que não entendi bem até agora o motivo desta brincadeira (pois assim a considero), mas, digamos que ganhei o ano diante de um ousado gracejo, ainda mais com cerca dez anos de diferença entre nós.

Mas a grande pergunta aqui é, por que me sinto assim tão lisonjeado? A resposta é inicialmente simples, as pessoas de hoje vivem quase em sua totalidade o que Zygmunt Bauman (1925) chama de “relações líquidas”. E o que são estas relações? Relações disformes, descartáveis, mais efêmeras um lampejo, onde em não raras às vezes são relações digitais. Você faz amigos pela internet, por incontáveis redes sociais, e se algo te desagradar, é só bloquear. Por vezes alguns transeuntes, mesmo não me conhecendo (e eu a eles) me cumprimentam ao passar por mim na rua, eu respondo, naturalmente, assim como encontro o vigário paroquial quando divido a calçada com ele. A paróquia que frequento é grande e ele é um dos párocos, logo ele não se recorda de mim, mas ele sempre estranha o “bom-dia padre”. Hoje as relações pessoais são vistas como algo estranho e antinatural.

As pessoas, talvez por medo de rejeição, fremem de medo das relações à moda antiga. Hoje muitos repetem a encenação de uma velha peça para mostrar para pessoas que elas nem conhecem o que elas não são. Por vezes gastam o que não tem para isso. O invariável vazio é o preço de viverem apenas para os outros.

Nesta sina de viver assim, sem personalidade própria, alguns sofrem, pois vivem assim num padrão “x” apenas para agradar e serem aceitos em troca. Já me compareci das mazelas alheias, mas hoje não ocupo mais meu tempo com questiúnculas individuais, hoje o coletivo me toma mais tempo, afinal a cada dia a “estupidez” se torna mais o adjetivo da direita. Direita esta que senta-se a volta de uma mesa para jantar e vocifera entre dentes lixo em tons de patuscada, e recorrentemente o tema é ofensivo e essa falante choldra não se toca que à sua volta existem pessoas que se enquadram no que eles tanto fazem chacota. Acorde Osmar, ou saia da vida para a história, svp. 


É esse tipo de mentalidade da nobre corrente filosófica “bolsomítica-trumpaniana” que existe em tantas cabeças, e faz aquele mísero gracejo ser tão somente isso, um gracejo que virou lembrança. Lembrança esta muito boa, ao contrário dos discursos “osmarianos”. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Hasta la vista baby


Desterro, 1º de setembro de 2.016.

Não! Não volte! Eu lhe proíbo! Levei muito para sufocar esse sentimento que por muito tempo nutri por ti. Foi em legítima defesa, mas, ainda sim assassinato. Mas, saiba que não me arrependo.

Deixe-me agora. Hei de velar o que sobrou, permita-me a solidão e a sanidade que tanto necessito. Deixe-me fechar as janelas, cobrir os espelhos, sair de cena e vestir o luto. Por fim, parei o pêndulo do relógio, o tempo não importa mais. 

Foram anos efêmeros em uma distante companhia de teu feérico olhar que me seguia por onde eu fosse. Hoje, a lacônica lembrança daquele olhar traz nesta noite uma velha canção que certa vez aprendi: “Bist du bei mir, geh ich mit freuden zum sterben und zu meiner ruh. Ach, wie vergnügt wär so mein ende, es drückten deine schönen hände mir die getreuen Augen zu!” Contudo, a despeito da música, hoje só resta a mim chegar teus olhos, e te oferecer uma ou duas moedas.

É, sei que é um processo lento, mas sei também que com o auxílio copioso de algumas lágrimas e do implacável tempo, hei de purgar-te de minha vida.  

Profundo foi o que senti por ti, e marcante, excruciante... Foi a anátema que vivi por não ser correspondido. A vida sempre segue e que os mortos enterrem seus mortos[1].

Temo e fremo pelo lúgubre dia em que irás ressurgir da fria sepultura e me procurar como o um fantasma com assuntos pendentes... Num ledo engano acharás que tudo são flores! Neste dia verás com teus olhos que as únicas serão teus crisântemos.

Eis a derradeira hora! Eis o último adeus dito sem um primeiro beijo. Você não teve coragem de me amar, e eu saberei te esquecer.




[1] Lc. 9:59-60.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Os Idiotas vão tomar conta do mundo

Numa rápida pesquisa no google constatei que o tinder possui mais de 10 milhões de usuários só no Brasil. Em uma outra pesquisa descobri que existe toda a sorte de aplicativos para celular onde o objetivo é conhecer pessoas. Alguns é o famoso conhecer bíblico do primeiro livro, outros apps são um pouco mais “sociais”.
Entre fotos que vão para a esquerda e direita na minha conta, recentemente fiz dois curiosos contatos. O curioso que nós três compartilhamos a mesma formação, porém não o mesmo esclarecimento e tolerância. Para minha desventura, ou não, graduei-me em direito, e aquelas antas também. Vergonha alheia em saber que num ramo que lida tanto com pluralidades existam pessoas de pensamento tão pusilânime.
O que ocorre é que no meio de ambas as conversas me pediram o meu endereço de conta do instagram, e lá há uma minúscula biografia minha, com sete itens, a saber:
1.Notre-Dame d'Exil
2.Monarquista
3.Amo o inverno
4.Só uso tinteiro
5.Sabrage nas horas vagas
6.Projeto de pianista
7.Nutella lover.
Nasci como gosto de dizer em Nossa Senhora do Desterro, pois nunca concordei com o arbitrário decreto do então governador Hercílio Pedro da Luz (1860-24) alterando em 1894 o nome da cidade para Florianópolis, em homenagem ao facínora Floriano Peixoto (1839-95). Sim, nossa cidade ganhou o nome de um assassino, e ele ainda estava vivo.
Adoro mesmo o inverno. Passo muito desconforto com o verão, e o inverno tem lá o seu charme. Questão de gosto mesmo.
Ainda por gosto e passatempo adoro canetas tinteiros ou o velho bico de pena, me divirto com o velho hábito da sabrage imortalizada pelos hussardos de Napoleão (1769-21), onde com técnica e graça é possível abrir uma garrafa de champagne com um sabre. Sempre que possível dedilho alguma melodia no meu velho piano Essenferder e aprecio tudo que tenha nutella.
Porém o que norteou minha conversa com esses dois contatos foi a monarquia.
É incrível como mesmo as pessoas, ditas esclarecidas conseguem confundir a monarquia com o absolutismo. É brutalmente fácil atacar o desconhecido, assim como é assombrosamente difícil libertar os idiotas as correntes que eles tanto veneram[1].
Sempre defendi uma monarquia parlamentarista que deveria existir sob uma Carta Magna, e não o ancien régime. Teríamos um modelo mais eficaz, uma vez que abriríamos mão do presidencialismo de coalisão com o congresso, onde o executivo necessita de conchavos políticos com o legislativo para manter-se no poder e ter condições de governabilidade. No parlamentarismo o Primeiro Ministro nasceria do Parlamento, mesmo que eleito diretamente, e seria o Chefe de Governo, cabendo ao Monarca Reinante do papel constitucional de Chefe de Estado. Mas, é mais fácil fazer as pedras compreenderem isso, mesmo, que eu tanto em política como em religião nunca tentei convencer ninguém do que eu sigo, creio ou professe seja melhor o que o que outra pessoa possa vir a pensar.
A questão sobre a qual eu em insurjo aqui não é um debate sadio, mas sim a crítica pura. Permito-me aqui uma brincadeira, eles sabem puramente criticar, mas será que sabem o que é a crítica da razão pura[2]? Creio que não.
É esse o tipo de seres que rastejam por aí.  Praticamente uns sepulcros caiados[3]. Por isso o que me é humano não me é alheio[4], não é de se estranhar o motivo pelo qual estou sozinho, pois para a maioria, e era o caso desses contatos, beleza basta. Purcell[5] estava certo quando musicou “o solitude my sweetest choice”.

Desterro, 12 de Agosto de 2014.



[1] François Marie Arouet, o Voltaire (1694-78), filósofo francês.
[2] Immanuel Kant (1724-04) filósofo alemão.
[3] São Mateus 23, 27-32.
[4] Publius Terentius Afer, mais conhecido como Terêncio (ca. 195 a.C.-185 a.C. — ca. 159 a.C.), dramaturgo e poeta romano.
[5] Henry Purcell, 1659-95, compositor inglês.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Academias


No dia da Procissão de Passos deste ano, fui até o Imperial Hospital de Caridade para tratar de uma dor de ouvido e de garganta que já durava alguns dias. Durante a triagem, a enfermeira utilizou um esfigmomanômetro que mais parecia um estabilizador de computador. Muito embora aparentasse ser um aparelho moderno, digital, com sei lá mais o quê, ele não era aquilo tudo, ou como se diz: “não era uma brastemp”. Após três tentativas frustradas de aferir minha pressão arterial, e eu que já estava de saco cheio daquela braçadeira me apertando, perguntei de não tinha um esfigmomanômetro analógico mesmo. Esses não te deixam na mão. Resultado: foi de primeira! Marcação foi tipo “hosana”, nas alturas e a triste marca de 190 por 120, ou 19 por 12.

Então, após a tradicional losartana, ou algo do tipo, e mais algumas horas ali esperando o efeito da medicação, fui consultar e os médicos que me atenderam recomendaram dentre outras mil coisas, exercícios físicos. Então, alguns dias depois, lá estava eu, mais possesso que uma criança contrariada, indo fazer minha matrícula em uma academia aqui perto de casa.  Frequento a um mês. E nesse meio tempo percebi que não fiquei tão dolorido como o povo diz por aí, notei que perdi cerca de um quilo e meio, e reparei que as segundas-feiras a densidade demográfica da academia aumenta vertiginosamente, mas, as sextas-feiras é um deserto. Em uma segunda-feira comecei a observar entre uma pedalada e outra, quais eram as pessoas ao meu redor, comecei a observar essas pessoas neuróticas por ferros em seu habitat natural, mesmo que eu fosse a única coisa que destoasse dali – me senti um anjo barroco numa daquelas aberrações que o arquiteto comunista chamava de “igreja” – mas, certo que pedalando e fazendo o que os demais faziam eu passaria despercebido, e assim descobri o homo brachio ferrum[1], um espécime nada raro, na verdade eles pululam mais que vendedores de guarda-chuvas em dia de temporal.

Esses seres, geralmente possuem o ego grande, mas o alter ego, o superego e o Id são bem mais inflados que o próprio indivíduo. Dizia Franklin que um homem cheio de si faz pouco volume. Bem, eis ai a exceção à regra! Falando em regras, pareceu-me muito comum uma série de hábitos que parecem verdadeiros “cânones pétreos”, tais como: usar roupas que valorizem o físico (embora algumas pessoas indispõem-se caso recebam e percebam algum olhar mais atento. Parecem que querem mostrar, mas ninguém pode ver... aind anão compreendi muito isso), gemer e fazer cara feia ao levantar peso, esses mesmos pesos não são guardados (por isso há academias que pregam uma tabuleta na parede com os seguintes dizeres “quem não guarda os pesos é corno”), e quando esses pesos, halteres e afins são soltos, é bom deixar cair um pouco no chão para fazer algum barulho. Afinal, terra tremuit et quievit[2]! É crer para ver! Entre tremores e silêncios as pessoas a sua volta tem o dever de saber quanto ferro o homo brachio ferrum consegue levantar! Percebemos isso, quando o silêncio é quebrado pelos gemidos e pelo strepitus[3] do peso que “treme a terra”.

Em um mundo cada vez mais secularizado houve então o surgimento de um nicho para um novo culto: o culto ao belo (leia-se: ao fútil). Poucos estão lá por que necessitam de saúde, bem estar e qualidade de vida. O negócio é ter corpão, e o pior: ninguém admite isso! Por isso que digo que é fútil mesmo, e também hipócrita. Quem não se enquadra no novo estereótipo, o do “corpão”, acaba sendo excluído de alguma forma dessa sociedade que valoriza mais fortitudo do que a sapientia[4].  Nisso surgiram uma série de coisas (ou sempre existiram, mas veladas?), como piadinhas, exclusões e até a tal da gordofobia, que ninguém fala, ninguém conhece, mas todos vêem o gordo e o excluem.

Vou continuar com o meu in medio stat virtus, e vou ter saúde e uma aparência melhor. Como costumo erguer livros, terei um plus de um bom e diversificado conteúdo.       

Por fim, seria injusto de minha parte não mencionar algumas das qualidades desta tão singular espécie: ao menos no seu habitat natural ele são geralmente corteses, pedem desculpas se esbarram em você (mas não esbarre com eles numa ‘balada’, nunca mesmo), perguntam educadamente se você vai utilizar algum aparelho se você está perto dele, e o mais curioso, são bem atenciosos com os idosos. Fofo, não? Para não dizer surreal.

N.S.D., 12 de maio de 2016.


[1] Homo brachio ferrum: literalmente “homem do braço de ferro”, uma jocosa brincadeira.
[2] Terra Tremuit et quievit: Sl. 75.
[3] Strepitus: ruído.
[4] Força e Sabedoria, respectivamente. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Conversas da madrugada

Um abraço em uma noite fria, para se ficar juntinho...
Bem, como se diz, “sonhar é grátis”.
Sonhar é indolor
Sonhar, é mesmo que por um breve lampejo, a realização de um pequeno milagre...
Que acaba quando o despertador toca.
Aí você põe a “máscara da felicidade”, ou da hipocrisia - já que esta é a arte da convivência - e sai por ai, sendo “feliz”... como tantos outros.

Poeta agora?

Poeta? Não, lúcido!
Só isso.
E com espelho e dicionário em casa.
Não tem que ser a idealização do belo

Saber a diferença entre ''mas'' e ''mais'' já está bom.

N.S.D., 13 de abril de 2016.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Aniversário

N. S. do Desterro, 04 de abril de 2016
09:48

Assim que acordei hoje, percebi que o dia está com uma temperatura aceitável, umidade não muito alta e completamente nublado. Cinza como Londres. Perfeito para mim.

Nesta manhã, quando sentei no trono para fazer minhas elucubrações matinais, me peguei divagando mentalmente sobre se eu tinha feito (ou não) uma cagada num certo 4 de abril. Pois... esta é uma reflexão que completa hoje exatos dez anos. Mesmo com o passar de uma década, algumas dúvidas ainda persistem, como a cagada do ser ou não ser como diria Shakespeare.

Naquele mesmo trono, e num outro, li os mais diversos livros, geralmente pequenos e de capa azul. E nessa guerra dos tronos, me pergunto, mesmo que retoricamente  a diferença entre um e outro. Mas, mesmo assim, eu não vou ser tão turrão assim e vou explicar: um trono, o humilde, alivia as angústias,  e o outro por sua vez incita a tal da vanitas. Mas lembro que, a humildade demais, deixa de ser uma virtude e transforma-se no pecado da soberba. O meu conselho de dez anos é “nem muito ao céu, e nem muito ao inferno”.

Nesses anos, conheci toda a talha de pessoas, muitas boas, outras nem tanto, muitas também  se foram deixando saudades, e outras alívio.

As vezes a solidão do deserto nos traz alívio, acho que por isso Cristo se meteu por lá, mas, nem o capeta deu folga! As vezes o ermo é bom, porém mais de um ermo grande nem sempre é!

Não sei se o balanço é positivo, afinal, pago para sentar em qualquer cadeira e para falarem mal de mim.

Quem não entendeu como a coisa funciona, tem que pedir pra sair. Simples. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Quem torce por Golias?

Brutus abraçou,
Judas beijou, e
Iago foi amigo.

A. F. Carpes

Quantos Judas, Brutus e Iagos existem por aí?
É a proximidade que permite a felonia, e é essa mesma proximidade que a torna tão abominável e hedionda.
Nada como um falso amigo.
Nada como aquele que só lembra de você nos momentos de necessidade!
Nada como um idiota que fala mal de você para um dos seus amigos, imaginando (delirando mesmo) que seu amigo jamais irá te contar tudo. Ou será que imagina que o amigo vai contar? Se for, além de idiota, é covarde, frouxo para se valer de um garoto de recados!

Dizem, que a pior coisa que se pode sentir de alguém é pena. E nem isso eu sinto.

Sei que sempre tem um desses “amigos” que chafurdam hoje na merda. Não deleito-me com isso. Mas, tão pouco me perturbo, e consigo pôr minha cabeça tranquilamente no meu travesseiro todas as noites, afinal, eu fui amigo e nada de mal eu fiz. Uns que outros que não são “amigos da onça”.

Eu não crio pantomimas para lesar os outros. Não busco denegrir para tentar subir. Vivo apenas minha vida.

Pessoas, como essas, deixam um rastro de destruição por onde passam, e assim sendo, quem as quer por perto?

Realmente! Com efeito! Efetivamente! Este, veio apenas para roubar, matar e destruir[1]!
Afinal, quem torce por Golias?

Nª Sª do Desterro, 08 de fevereiro de 2016.



[1] Cf. Bíblia: João 10:10.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Das cinzas as cinzas do pó ao pó

Ontem, dia de finados, conversei muito com uma amiga acerca de algumas questões teológicas e espirituais sobre a cremação. A questão que surgiu foi se a alma/espírito sentiria algo nesse processo tão radical. A primeira questão que levanto, e sempre a abordei de forma objetiva é o tempo que essa alma leva para separar-se por completo do corpo já sem vida. Pois, admitir que a separação seja imediata, é, no mínimo pressupor que essa alma vá imediatamente para algum lugar, independentemente de ser o céu, inferno, purgatório ou mesmo o limbo.

Mas, sempre pensei que esses quatro lugares são como repartições, órgãos e entidades públicas, tais como prefeituras, escolas, hospitais, e outros sem número de possibilidades que só fazem a burocracia aumentar. Ir para qualquer desses lugares, é sem a menor sombra de dúvida, uma odisseia além-túmulo.

Partindo desse princípio, o julgamento, segundo Paulo (V. Hebreus 9:27 e 28) é após a única morte o homem será julgado. Penso que a pauta de julgamento está bem conturbada, e está saindo processos pelas nuvens a fora.  Então há uma “sala de espera”, tipo dessas bem “descuncumbelhadas” que tem em toda a rodoviária, e por ali fica a alma mesmo. Ou ela fica junto ao corpo que logo apresentará os livores e o rigor mortis, ficará ali tentando compreender que ela já não pertence mais ao mundo dos vivos.

Penso que a ascensão direta e imediata aos céus, nirvana, valhalla, campos elísios, fábrica de toblerone , seja qual for o nome, ocorrem com pessoas como a Irmã Dulce da Bahia. E por lógica, o inferno a Mao Tsé-Tung responsável pela morte de 70.000.000 (setenta milhões) de pessoas (embora as pessoas só lembrem-se do imbecil austríaco).

E quanto a nós? Simples e meros mortais sem grandes feitos em nossas vidas (bons ou não)? Penso que, quem ao forno for, mesmo que por tendências ecológicas, vai por assim dizer, passar calor. Teologicamente você será o touro de Lucas, oferecido em holocausto, porém o sentido é outro, e fico pensando se o odor seria agradável a Deus (V. Núm. 29 e Lc. 1).

Para mim é muito achismo e muita aparência. Assim, como as pessoas que eu rotulo como “sepulcros caiados”. Sim, eu rotulo as pessoas, após uma curiosa análise, eu as rotulo, uma a uma, faço isso com qualquer um, afinal, é do ser humano rotular. Se o leitor pensar em me criticar, eu o chamarei de hipócrita, pois sei bem que todos fazem isso, as pessoas sentem uma constante necessidade de se enturmar, de serem aceitas em um grupo, família, sociedade. As pessoas se auto rotulam. Definitivamente, eu não posso ser criticado por admitir e constatar isso tudo. A rotulação é minha, é pessoal e secreta.

Sim, é lógico que pela pecha da carne eu, como qualquer um cometo erros. Já achei que algumas pessoas eram, digamos, no mínimo desagradáveis, mas, com o tempo isso mudou; e também já rotulei outras como “irmã Dulce”, mas na realidade era apenas Bezaliel, um demônio (ou anjo caído com o Lulu, se preferirem). Por isso que tenho guardado meus rótulos para mim. Se a pessoa passou por um mau julgamento de mim parte, é uma grata surpresa quando percebo o erro e vejo que há algo de bom ali. Mas, em sentido oposto, a decepção (por assim dizer) é bem maior quando vejo uma pessoa que eu julgava ser mais evoluída e espiritualizada pôr as garras de fora. Mas, como sentencia um velho adágio: “a cruz nos peitos e o diabo nos feitos”, ou como disse um Francisco (não, não é o argentino) é como “dar a carne ao diabo e os ossos para Deus”, ou para a deusa que estapeia, conforme o panteão.

Eu realmente acreditava que não comer carne (ou melhor, conseguir abster-se dela) por questão religiosas era um sinal de espiritualidade elevada. Aí me toquei que Hitler era vegetariano, além é claro, de não beber, fumar, ou prevaricar (sim, é uma piadinha sobre um ministro também, fica aqui a referência).

Enfim, você se dá conta, que essa pessoa “evoluída” é a mesma que te prejudica, deliberadamente por seu gosto mais apurado, uma preferência política distinta e incomum, uma cultura superior, uma posição social melhor, ou simplesmente, por que seu senso estético é mais apurado, seu conceito de arte e de belo é distinto.

Você não pode jamais dizer que o belo é o que você ama, pois a criatura não amada se sente feia. Quando você diz do que gosta, você é rechaçado por isso (vou deixar outra ref. aqui: “A História da Beleza”, de H. Eco).

Alguns vão realmente se doer por que você aprecia, por exemplo, as formas clássicas das esculturas renascentistas, barrocas, ou as telas do romantismo alemão. Falar em Pietà e Davi (de Michelangelo), Cristo Velato (de Giuseppe Sanmartino), Le Génie du Mal (de Guillaume Geefs), Ratto di Proserpina (Bernini) é uma afronta. Não tem como não se encantar com a alva carrara, não há como não se apaixonar por seus corpos delgados, e como não apreciar uma escultura de primeira.

Alguns gostam das Vênus Esteatopígicas (V. Vênus de Willendorf). É direito de cada um gostar, ou não, assim como se tem o direito de expressar isso.

O problema dos rótulos hoje, é que eles evoluíram, ou melhor, involuíram... Hoje eles não servem apenas para identificar a principal característica de alguém, hoje esses rótulos servem para que os preconceitos sejam aflorados, exteriorizados. Há também nesses dias a questão do politicamente correto, que chegou a tal ponto, que o Professor Karnal não faz mais metáforas com o autismo por exemplo. Agora somente se fala em “isolamento odontológico e heurístico”. Tudo bem, mas voltando, hoje gostar de Murillo, Velásquez, Bouguereau, Friedrich, Doré, Caravaggio, Coubert e não gostar de Miró, Escher e Dali é um verdadeiro problema, pois você é preconceituoso. Ai você ganha esse rótulo abertamente.

Pelo politicamente correto não se pode mais exaltar as qualidades do que você gosta, como por exemplo, a escultura do Cristo Velato de Sanmartino. A beleza (que está nos olhos de quem vê) do corpo maltratado e sem vida de Nosso Salvador, envolto em um fino sudário certamente ofende quem admira uma escultura tipo Romero Britto.

Dizer que você não gosta do MC sei-lá-o-quê, do Britto, do Paulo Coelho, de funk, ou não gostar do trabalho de um ator que ganhou a Framboesa de Ouro é uma monstruosidade de uma hediondez sem par, algo comparável às atrocidades dos fanáticos islâmicos (e alguns cristãos, e outras religiões também, que entram por legenda). Enfim, qualquer coisa que você não goste pode ser rotulada de preconceito.

Seria preconceito meu em dizer que essa alegoria toda foi apenas para pessoas intelectuais? É preconceito meu dizer que hoje as pessoas são niveladas por baixo? E com razão!
Eis que por tanta apuração minha, alguém teria se ofendido e teria se empenhado em uma verdadeira cruzada por vingança, só por que eu não aprecio as esculturas “zen-niponísticas”. Isso é demais para mim.

Para tentar elucidar essa questão curiosa questão, vou tentar alguns caminhos... Digamos que um compositor como Mahler pergunte a mim: “que tipo de música você gosta?” E eu respondo que gosto da pegada repleta de irascibilidade de Beethoven, da racionalidade matemática de Bach e do appassionato de Brahms. Nisso, nosso amigo Mahler se ofende e desfralda sua ira, mostrando, mesmo que de forma sutil, quem realmente ele é. Acredite quem quiser. E quem não acreditar ou conhecer, que compre!

Mahler vai continuar escrevendo suas sinfonias com solo de marretas por ai. As ouça quem quiser. O mais divertido é que nos tempos que nosso amigo me aprontava umas, tudo deu errado na sua vida, e até com a polícia ele se incomodou. Não é mais fácil cuidar da própria vida?

Eis a hora de rever o rótulo empregado nesse caso: onde outrora havia um “zen”, vou pôr outro rótulo, com a gravura de um crânio com um par de tíbias acrescido com o termo “veneno”. É nessas horas que eu brinco com Rousseau e digo que pode até nascer bom, mas antropofagicamente ele se corrompe. É... Mais uma vez me decepcionei com um amigo, ou melhor, alguém que eu pensei que fosse um. Alguns dizem que o nome disso não é “amizade” mas sim “filhadaputagem”. Seria isso, ou coisa pior?

Em uma longa análise e em um longo debate com a amiga do inicio da crônica, chegamos à conclusão que faltou um rótulo a mais para Mahler: o da inveja. Afinal, os nomes dos invejados formam uma boa lista.

Imperioso é nos afastarmos o quanto antes desse tipo pessoas, amigos, ou seja lá quem for que tenha qualquer tipo de inveja de você. Afinal, quem ter a sua volta pessoas negativas que se escondem atrás de um jardinzinho zen, pessoas que não conseguem ficar feliz por nossos sucessos, por nossas conquistas, enfim, por nossa felicidade. J.K. Rowling foi muito feliz ao criar a figura do dementador, que é um espectro que se alimenta da felicidade das pessoas.

Devemos ter muita atenção nas pessoas ao nosso redor. Muitas usam máscaras, e se olharmos bem, iremos notar que por detrás dessas máscaras, sempre cai um pouco das cinzas, como aquelas que sobram nos fornos. Aquele pó cinzento que nos indica que um dia aquilo já fui um ser humano.



NªSªD., madrugada de 2 e 3 de novembro de 2.015.